

O octógono é o cenário mais evidente de Fúria, mas está longe de concentrar todas as lutas da série brasileira da Netflix. Fora dele existem dívidas, relações familiares quebradas, culpa, ambição, violência e afeto. No centro está Marcelo, um homem sem memória tentando descobrir quem é enquanto pessoas perigosas parecem conhecer melhor seu passado. É dessa combinação entre ação e melodrama que a produção encontra sua maior força.
Vinícius Neri assume missão difícil ao interpretar o protagonista sem passado ao qual recorrer. O ator encontra principalmente no corpo uma forma de construir Marcelo. Dentro do octógono, preparação física e coreografias dão credibilidade às lutas; fora dele, são as reações diante de uma vida desconhecida que sustentam o mistério. Vinícius não força a composição e conduz o personagem com maturidade.
Se Marcelo movimenta a trama, Toni é seu coração. Fábio Lago entrega uma das atuações mais potentes da série ao construir um homem contraditório, engraçado, ferido e constantemente próximo de transbordar. O roteiro acerta ao dar conflitos próprios ao personagem e não transformá-lo apenas em instrumento para a jornada do protagonista. As trocas com Vinícius Neri e Alice Carvalho estão entre os bons momentos da temporada.
Alice, por sua vez, encontra um registro diferente em uma personagem brigona e lutadora, cuja aproximação com Marcelo funciona sem comprometer sua independência. Cláudia Raia aproveita cada aparição como uma agiota que mistura humor e sensualidade, embora merecesse mais espaço. Bianca Comparato trabalha bem as ambiguidades da líder da academia rival, enquanto Eduardo Moscovis constrói ameaça sem transformar o vilão em caricatura.
O problema de Fúria nasce justamente de uma qualidade: existem personagens e conflitos interessantes demais para apenas seis episódios. Relações, revelações e arcos pedem mais tempo para amadurecer. Quatro capítulos adicionais poderiam dar esse espaço sem transformar a narrativa em algo arrastado.
Por baixo da embalagem de ação e MMA, Fúria entende ainda a força do melodrama brasileiro. Há famílias atravessadas por segredos, vilões, afetos complicados e passados capazes de reorganizar destinos. A série prova que produções nacionais não precisam abandonar nossa tradição dramatúrgica para parecer modernas.
Vale assistir. Fúria tem sangue, luta e mistério, mas são seus personagens que permanecem. Seu maior pecado é justamente terminar quando ainda havia muita luta pela frente.
Publicado na edição 11.031, sábado a sexta-feira, 5 a11 de setembro de 2026 – Ano 102




