Interesses eleitorais sobrepõem-se à política agrícola

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Para garantir votos da bancada do Nordeste, governo federal privilegia usineiros inadimplentes.

Em 1988, a Revista Playboy publicou uma entrevista com um jovem governador alagoano que dizia enfrentar os marajás, representados principalmente pelos usineiros inadimplentes. Com este mote, Fernando Collor, o entrevistado, tornou-se presidente da República. Durante seu curto mandato, não fez um gesto sequer para acabar com os privilégios, porque os tais marajás, mostraram-se depois, seus apoiadores e o restante da história todos conhecem seu final.
Passados 25 anos, a presidente Dilma Rousseff (PT) segue a mesma lógica em continuar privilegiando usineiros dos estados nordestinos através da Conab. O motivo é igual ao de Collor, garantir o apoio da bancada de senadores e deputados daquela região, que têm suas campanhas financiadas pelos privilegiados. Mas desta vez, há por trás também a intenção de minar o avanço de um pré-candidato a presidente, o governador pernambucano Eduardo Campos (PSB).
Nem Collor e nem Dilma inventaram a indecente forma de troca de favores por apoio político. Dom João VI e seu filho Dom Pedro I construiram suas forças políticas de base, na distribuição indiscriminada de títulos de nobreza, dados até para credores da Coroa Real.
Enquanto isto, do Brasil colonial até a República, não foi planejada, a política agrícola. Tudo é feito na base do momento. Se o café está em alta, comemoram. Se a exportação de suco de laranja bate recorde, fazem pronunciamentos para elogiar a balança comercial positiva.
Nas costas dos agricultores, recaem todos os riscos da produção rural. Apesar da pomposidade, o Ministério da Agricultura é uma fachada. O cargo principal, dificilmente é ocupado por um conhecedor da área. Com excessão do ex-ministro Roberto Rodrigues, o restante são indicados por partidos, com intenções de beneficiar suas bases eleitorais. Os tais pacotes de ajuda à agricultura, nunca saem sem passar pelo crivo destes senhores.
Embora o Brasil seja um país industrializado, a economia ainda depende e muito do desempenho do campo. Basta olhar para os principais produtos de exportação, grãos, carne e suco de laranja.
Se algum dia, o Brasil quiser, de fato, adentrar para o Primeiro Mundo terá que investir sério na agricultura, como setor tão estratégico quanto o petróleo. Porque não é só o combustível fóssil que está acabando, mas as áreas agricultáveis do mundo também estão sendo reduzidas. E no Brasil, temos isto de sobra, só nos falta político com vergonha na cara.

Publicado na edição nº 9623, dos dias 15 a 18 de novembro de 2013.