
A pandemia referente ao novo coronavírus vai passar. E não será por uma simples questão de fé, mas, principalmente, pela execução de ações conjuntas entre sociedade e governo pautadas nas melhores prescrições científicas. Será uma questão de tempo para que a curva de notificações de novos casos atinja seu ápice e comece a declinar.
Por outro lado, convivemos indolentemente com outra pandemia que tem tomado conta do mundo de forma vertiginosa. De acordo com a OMS já são 2,3 bilhões de pessoas afetadas.
Tudo começa com um chocolate, depois outro e mais outro… . Passado um tempo, lá se foi a caixa inteira. Logo vem a sensação de culpa e o desespero por encontrar uma solução mágica que o faça dormir gordo e acordar magro. Coincidentemente, as fórmulas milagrosas existem para quem nelas acreditar e insistentemente entram em nossa casa para nos aporrinhar. É provável que a sensação ou sentimento de culpa não sejam regra para todos os obesos, mas com grande frequência atormentam muitos deles. Não fosse assim, a indústria do corpo escultural e perfeito já estaria falida.
A ciência e a tecnologia também entram nessa epopéia, ora para descobrir novas fórmulas milagrosas, ora para analisar causas e conseqüências da obesidade. No mundo, institutos de pesquisa, clínicas médicas e hospitais especializados em obesidade divulgam dados sobre o assunto, o que às vezes acaba confundindo a população que se vê refém de números e informações contraditórios.
Rumo à magreza
Como sempre aconteceu à ciência evolutiva e dinâmica, a cada dia surgem novas perspectivas para as causas da obesidade que não as diretamente ligadas à herança genética. Como se sabe, já foram identificados mais de 250 genes que favorecem o aumento de gordura, aumentam o apetite e mantêm o metabolismo lento. Mas sabe-se também que existem obesos que escapam às armadilhas genéticas. Nesses casos, a quem imputar a culpa pelas gorduras adicionais?
Embora sem comprovações científicas, os fatores culturais, sociais e principalmente os emocionais estão sendo considerados candidatos fortes. E não é para menos, com os padrões de beleza atuais em que um palito de sorvete é considerado gordo, as pressões sobre a população acabam por desestabilizar o psicológico de muitas pessoas.
Para se ter uma idéia, uma pesquisa da Universidade de Flinders, na Austrália, envolvendo meninas de cinco a oito anos mostrou que 47% delas desejariam ser magras e 45% fariam dieta se engordassem. Grande parte delas disse que estar em forma as tornaria mais populares.
Segundo informações da Associação Internacional de Fomento ao Universo de Saúde e Exercícios, aproximadamente 9,6 milhões de brasileiros frequentam hoje o universo fitness. O setor de alimentos fast-food também tem se movimentado. O grupo Yum Brands, dono das marcas Pizza Hut, Taco Bell e KFC providenciou um mês de academia grátis a seus consumidores e a rede McDonald’s investiu em hortaliças para abastecer as opções ditas mais saudáveis de alimentação.
Embora exista esse verdadeiro tsunami em prol da magreza, estima-se que mais de 100 milhões de brasileiros estejam fora de forma. Pior, a obesidade infanto-juvenil aumentou cerca de 240% nas últimas décadas.
Os sentimentos
Para especialistas como Adriano Segal, da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade, o aumento acentuado de peso é um problema complexo. Diz ele que apenas 5% dos casos estão associados a uma única causa, sendo consequência de um distúrbio hormonal ou doença. A maioria ocorre por múltiplos fatores. Ele não acredita que alguém possa engordar simplesmente por um certo tipo de carência ou insegurança, embora concorde que esses sentimentos, como consequência da queda da autoestima, podem transformar a alimentação em uma grande fonte de prazer, e consequentemente, fazer o indivíduo ficar maior.
Para um problema não trivial como o da obesidade não há solução simples, rápida e milagrosa. Dizem os especialistas que qualquer que seja a receita adotada, deve contemplar a reeducação alimentar, a prática esportiva e a manutenção da autoestima. Mais importante ainda, essas ações devem ser sempre acompanhadas por profissionais da área da saúde.
Pense assim, sempre haverá tempo para mudanças, mas antes é preciso querer. Caso tenha interesse em conhecer um pouco mais sobre o assunto, vale a leitura https://nacoesunidas.org/?post_type=post&s=obesidade.
(Colaboração de Wagner Zaparoli, doutor em ciências pela USP, professor universitário e consultor em tecnologia da informação).
Publicado na edição nº 10480, de 18 a 24 de abril de 2020.




