Nobel 2015: entre parasitas, neutrinos e DNA

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Doença de pobre dificilmente sensibiliza os grandes laboratórios farmacêuticos a investir em pesquisas para o desenvolvimento de medicamentos, afinal, depois de pronto o remédio, alguém tem que pagar a conta normalmente alta de sua concepção, e pobre, sendo pobre, não tem como pagá-la. Não é à toa que doenças como a dengue, hanseníase, tuberculose, esquistossomose e malária, entre outras, ainda matam milhares de pessoas no mundo nos dias atuais.
Ken Warren, da Fundação Rockefeller, foi muito preciso quando cunhou o termo “doenças negligenciadas” em 1980, referindo-se às moléstias historicamente carentes de recursos. Trinta anos depois entramos no século 21 inebriados pela cativante tecnologia das coisas, e num olhar mais profundo, entendemos que o termo de Warren continua mais atual do que nunca.
Na contramão desse cenário obtuso, a Assembleia do Nobel há poucos dias atribuiu o prêmio Nobel de Fisiologia ou Medicina de 2015 a três pesquisadores que dedicaram boa parte de suas vidas profissionais à causa das doenças negligenciadas: William C. Campbell, pesquisador irlandês da Universidade Drew, Estados Unidos; Satoshi Omura, pesquisador japonês da Universidade Kitasato, Japão; e Youyou Tu, pesquisadora chinesa da Academia de Medicina Tradicional Chinesa.
Campbell e Omura foram laureados pela criação da droga avermectina que conseguiu reduzir sensivelmente a incidência de oncocercose, popularmente conhecida como “cegueira dos rios”, e pela filaríase linfática, infecção por trás da elefantíase, causada por vermes do gênero Filarioidea. Já Youyou foi reconhecida pela criação da artemisinina, droga que combate os parasitas que causam a malária.

Neutrinos com massa

O neutrino é a segunda partícula mais abundante no universo, só perdendo para o fóton, a partícula da luz. Sua existência foi prevista em 1930 pelo físico austríaco Wolfgang Pauli, que precisava de uma explicação plausível para o decaimento radioativo, processo que registrava mais energia no seu início do que ao seu final. De qualquer maneira, foram necessários mais 26 anos para que esse novo elemento fosse observado experimentalmente, feito dos físicos Clyde Cowan Jr. e Frederick Reines em 1956. Tanto na previsão quanto na observação experimental, o neutrino foi concebido originalmente como partícula sem massa, devido principalmente, à sua pouca interação com os elementos do universo.
Em 1998 o pesquisador japonês Takaaki Kajita descobriu que os neutrinos mudavam sua identidade enquanto faziam a viagem da atmosfera até os detectores na superfície terrestre e um ano depois foi a vez do físico canadense Arthur B. Mcdonald anunciar que os neutrinos que partiam do Sol em direção à Terra também estavam mudando de identidade durante a viagem.
A natureza dessas mudanças, antagônica à teoria atual, indica que o neutrino de fato possui massa de pequena grandeza, mas a possui, o que tem implicado em uma revisão dos atuais modelos físicos, para o bem da ciência e do conhecimento do universo.
Pela descoberta da massa dos neutrinos, Kajita e Mcdonald foram laureados com o Prêmio Nobel de Física 2015.

Reparação do DNA

A estrutura do DNA – que guarda toda a história genética dos seres vivos – foi descoberta em 1953 pelos cientistas Francis Crick e James Watson, e até por volta dos anos de 1970, acreditava-se que ela se mantinha estável ao longo da vida do organismo, o que não se mostrou verdade. Os estudos realizados pelo sueco Tomas Lindahl, o americano Paul Modrich e o turco Aziz Sancar, demonstraram que o genoma sofre milhares de modificações diariamente, seja durante o processo de divisão celular, seja devido a fatores externos como os raios UV, radicais livres e substâncias carcinogênicas. Esse desgaste da cadeia levaria a inúmeras doenças, como o câncer, se não existisse uma magnífica sistemática reparadora do próprio organismo. Por desvendar um pouco essa sistemática “caixa de ferramentas” natural, Lindahl, Modrich e Sancar receberam o Prêmio Nobel de Química 2015.

Publicado na edição nº 9916, dos dias 19 e 20 de novembro de 2015.