
Entre os anos de 2020 e 2021 a humanidade foi literalmente assolada pela pandemia do Corona vírus. Os números não negam: no mundo foram registrados quase 700 milhões de casos, dos quais, cerca de 7 milhões vieram a óbito. Embora esses números nos revelem uma experiência muito dolorosa, não somos capazes de imaginar quais seriam eles se a ciência e os cientistas não tivessem agido de forma rápida na disponibilização de uma solução como resposta à pandemia, as vacinas.
Lembremo-nos de que a primeira aplicação da vacina contra Covid ocorreu ainda em 2020 no auge da pandemia, e a partir daí, boa parte da população do planeta começou a ter acesso a esse milagre da ciência, milagre esse que costuma levar alguns anos para acontecer em condições normais de temperatura e pressão. No caso da Covid, levou apenas meses.
Contribuições históricas
Um dos fatores que contribuíram sobremaneira para a agilidade da ciência em fornecer uma solução com eficiência e eficácia como resposta à pandemia de Covid foi o histórico de pesquisas realizadas até então com tipos de vacinas baseadas em modelos RNA Mensageiro (mRNA), descoberto no início dos anos de 1960.
As décadas seguintes à sua descoberta levaram os pesquisadores a sobrepujarem inúmeros desafios para chegar a uma vacina minimamente estável, sendo que os testes realizados durante os anos de 1990 e 2000 trouxeram boas esperanças nesse sentido, principalmente em relação a vacinas para proteção contra doenças virais como influenza, ebola e SARS.
Contando com toda essa bagagem acumulada, a criação da vacina no modelo mRNA contra o Corona vírus de fato foi uma questão de meses, e para a felicidade geral do mundo, a salvação de inúmeras vidas.
Um capítulo à parte
Dentro do rol de doenças alvo das vacinas mRNA está o câncer, responsável por mais de oito milhões de mortes ao ano no mundo. Devido às características peculiares dessa doença, a dinâmica de atuação da vacina é um pouco diferente quando comparada às doenças infecciosas. No caso das infecciosas, como a gripe, por exemplo, a vacina tem o objetivo da prevenção. Ou seja, ela é aplicada antes da pessoa adquirir a doença. No caso do câncer, o objetivo é terapêutico, focado no tratamento do paciente já diagnosticado.
Em uma breve explicação, para se construir a vacina utiliza-se um fragmento do tumor para que o sistema imunológico do paciente consiga desenvolver uma barreira de contenção que ficará armazenada na memória das células. O sistema imunológico é literalmente treinado para identificar e destruir quaisquer vestígios remanescentes de câncer, buscando as células cancerígenas que frequentemente se escondem no corpo para reaparecerem mais tarde. Isso aumenta as chances para o paciente se livrar da doença ao longo do tempo.
Nova era
Recentemente, o Reino Unido lançou um programa de ensaios clínicos com pacientes com câncer para o uso de vacinas de mRNA. Em geral, esses pacientes, que já se submeteram a cirurgias e sessões de quimioterapia, recebem uma vacina personalizada cujo objetivo é eliminar o DNA cancerígeno remanescente no organismo, prevenindo assim a recidiva da doença.
O primeiro paciente a receber a vacina foi Elliot Pfebve, de 55 anos, diagnosticado com câncer de cólon. Após o tratamento convencional para combater a doença, Elliot foi vacinado no Hospital Queen Elizabeth, em Birmingham, Inglaterra. A esperança é que a vacina possa exterminar todo o material cancerígeno que permaneceu em seu corpo após o tratamento.
Assim como Elliot, muitos outros pacientes de países como Alemanha, Bélgica, Espanha e Suécia já se candidataram a esse modelo de tratamento. Com o tempo, inúmeras pessoas poderão se beneficiar dessa importante evolução científica, convertendo expectativas ansiosas em grandes esperanças. Estamos testemunhando o início de uma nova era para o benefício de toda a humanidade.
(Colaboração de Wagner Zaparoli, doutor em ciências pela USP, professor universitário e consultor em tecnologia da informação).