

Após o conturbado processo histórico que levou Getúlio Vargas ao poder em 1930, em menos de dois anos o país enfrentaria outro movimento armado contra o poder constituído, desta vez uma guerra civil envolvendo os paulistas e as forças do governo federal.
Denominado como Revolução Constitucionalista ou Revolução Paulista de 1932, o conflito contou desde o princípio com a entusiasmada participação da sociedade, com o alistamento de milhares de jovens dispostos a defender a causa nas trincheiras.
Iniciado em 9 de julho daquele ano, data que seria instituída posteriormente como feriado estadual, não tardou, porém, para que ficasse evidenciada a eminente derrota das tropas constitucionalistas. A ausência de apoios de outros estados, o bloqueio das fronteiras e portos imposto pelas forças oficiais e a falta de recursos, fez com que fossem lançadas várias campanhas para arrecadação ou produção de capacetes de aço, binóculos, cigarros, alimentos, etc. No final do mês de agosto surgiria a campanha que ficaria na memória histórica da revolução: “Ouro para o bem de São Paulo”, que assim como as outras, focava na generosidade do povo paulista.
Em Bebedouro foi organizada uma “Comissão da Campanha do Ouro”, presidida pelo cônego Aristides da Silveira Leite e da qual faziam parte os cidadãos Joaquim Alves Guimarães, Alcindo Paolielo, Conrado Caldeira, Saturnino Lemos de Toledo, dr. Sebastião de Góes Conrado, José de Souza Lima, Jose de Almeida Senna, Mardoqueo de Britto Sant’Anna e Raphael de Cunto.
Com o objetivo de sensibilizar a população, a Comissão distribuiu pela cidade um eloquente manifesto, datado de 15 de agosto de 1932 e do qual destacamos alguns trechos:
“Ao povo de Bebedouro: […]
O “Tudo por São Paulo” é preciso que seja feito grandemente. E para a felicidade de São Paulo, para o triumpho de sua causa, que é a causa de todos os brasileiros, apela-se para a nunca desmentida e tantas vezes provada generosidade de todos: pequenos e grandes, ricos e pobres, homens e mulheres, velhos, moços, crianças. A todos, São Paulo pede nesta admirável campanha, o “Ouro da Victoria”.
A campanha do ouro para o bem de São Paulo vem sendo coroada de êxito extraordinário, tanto na capital onde milhares e milhares de doações vultosas vão excedendo as expectativas mais optimistas, como nas cidades do interior […]
Bebedourenses! A Commissão abaixo-assignada vem apelar para o vosso patriotismo e para o vosso grande amor a São Paulo. Concorrei com a vossa generosa oferta, pequenina que seja, para que Bebedouro, sempre colocado na primeira plana do movimento constitucional desde o grande contingente de soldados que avolumam as fileiras do exército da Lei, até os valiosos auxílios materiais de toda espécie, tenha também o seu lugar destacado nessa admirável campanha […]
Dinheiro, auxílios materiais, joias, ouro, pedrarias preciosas, vidas preciosíssimas… demos tudo pela victoria que nos sorri: tudo por São Paulo!
Compatriotas! Demos a São Paulo todo o ouro de que ele precisa para garantir a nossa tranquilidade e o futuro feliz dos nossos filhos! Senhoras paulistas: jovens filhas da raça bandeirante, doirae com as generosas ofertas de vossas joias os arrebóis da gloriosa ressurreição da Pátria Brasileira! Pró São Paulo fiant eximia!
O chamamento e articulação da Comissão possibilitou que a Campanha fosse bem-sucedida, contando com a colaboração não apenas da população em geral, mas também de instituições como Círculo Italiano, Ginásio Municipal, Grupo Escolar, Loja Maçônica Justiça e Amor, entre outras, conforme amplamente divulgado pela imprensa local e estadual.
Com a finalização da Campanha, o cônego Aristides divulgou que Bebedouro conseguira angariar donativos em ouro e objetos preciosos no valor aproximado de 40:000$000 (quarenta contos de réis), conforme avaliação feita em São Paulo pela direção da Comissão Central. Parte da arrecadação, no valor de 22:000$000 (vinte e dois contos de reis) foi destinado à Santa Casa de Misericórdia local, seguindo orientação do comando da Campanha.
A participação dos bebedourenses nesta Revolução, finda em 02 de outubro, não ficou restrita apenas à Campanha do Ouro, mas incluiu o alistamento de muitos jovens que seguiram para as frentes de batalha, assunto que será abordado em outro artigo.
(Colaboração de José Pedro Toniosso, professor e historiador bebedourense.)
Publicado na Gazeta de Bebedouro, edição 10.670, sábado a terça, 28 a 31 de maio