

Bebedouro sempre foi um palco de inspirações. Bastava andar pelas suas ruas e simplesmente observar. Tinha material farto pra todo lado. Proliferavam tipos exóticos e engraçados, sobretudo simpáticos e agradáveis. Era como se tivesse o programa da Praça é Nossa em cada canto, praça e rua da cidade. Uma verdadeira fauna muito diversificada. Semelhante àquela trupe da Arca de Noé. Quem viveu nas décadas de 60, 70 e 80 na cidade vai se lembrar dos três bêbados famosos, que perambulavam separadamente: Lepo, Ramon e Pirão, que divertiam a população com suas caretas, suas frases engraçadas e seu jeito mímico de se comunicar. O turco Miguel de Melo andava diariamente a pé pela cidade toda com dois cachorros, que às vezes até desmaiavam de tão cansados. O Zico Maneta pilotava sua carroça pelas ruas da cidade, chicoteando o cavalo pangaré. Tinha a figura caricata do Julianetti, que morava na Antônio Alves de Toledo, e cuidava do jogo de baralho no Bebedouro Clube. A tia Marieta, esposa do tio Fuad, sempre contando suas anedotas, se constituía numa celebridade por onde passasse. Estava sempre envolvida nos eventos de Bebedouro. A tia Hilda era hilária quando ia no consultório dentário do Carlitinho Barbosa, na rua Conrado Caldeira, e o chamava de Índio. Todo mundo se lembra do médico Dr Viana, que tinha o consultório na praça Monsenhor Aristides, bem ao lado do hotel Municipal. A gente ia fazer o exame médico para frequentar a piscina do Bebedouro Clube. Ele não examinava nada e ainda perguntava se a gente tinha frieira nos pés. Queria mesmo era faturar a taxa do exame medico. Muito diferente do esquisito Dr Honório da Fonseca e Castro, que tinha o consultório no Jardim Misterioso, e examinava demais. Muito engraçado e também malandro era o Mistura, porteiro da sede social do Bebedouro Clube. Tinha o desengonçado Pantera, que trabalhou no Bar do Nenê Galo, defronte a sede social do BC, e também no baralho do BC. O sorriso do Zé Lino iluminava a noite. Figuras folclóricas e impagáveis como o Nininho, do Bar do Nininho, o Tico Bignardi, amigo, malandro e bon vivant, e os irmãos Zé Luís e Zé Oscar, que formavam a dupla do barulho. Sirval, filho do Messias do Cine São João, com suas calças quase no peito. Dogair, farmacêutico da Farmácia Santa Terezinha, dançando com uma cadeira no Querosene. O intransponível Zé Conversa, porteiro dos bailes da Associação, que não deixava ninguém entrar sem pagar. O simpático e ingênuo garçom Paletó, que nos atendia na boate do BC. Waldemar de Melo, sempre observando e anotando tudo para sua coluna Marquês de Sandoval, na Gazeta de Bebedouro. Tinha o alegre e simpático Tita, que trabalhava para o Maud Frágoas. O Boia, com seu jeitão e seu malabarismo com a boca, era uma figura proeminente. Pedrão Bagunça, sapateiro de profissão e contador de causos. Walter Muniz, professor de educação física e exímio contador de piadas. Denis Schubert, protótipo de cantor, se apresentava no Bar do Dedê, no Morro do Querosene, em noites de striptease. Guri Preto, típico malandro carioca. Na Coronel João Manoel, o Thomé Calif, na sua loja, sempre fantasiado de branco. O Fadala Issa chegando pra trabalhar no Ao Magazine, na Prudente de Morais, com seu veículo Morris. O tio Adib com sua lambreta com motorista, chegando na Casa Kfouri. João Kfouri contando causos no Posto do Conde, na Antônio Alves de Toledo.Tio Mauro com seu pente no bolso da camisa e cabelo com brilhantina a caminho da alfaiataria no Edifício Pimentel. Os garçons Vanusa e Tureba, que pacientemente atendiam os bêbados do bar do Nenê Galo. A dupla zing e bing: Caran e Guedes. O Policarpo, sempre de sorriso largo, funcionário da família Stamato, trafegando com sua caminhonetezinha. O investigativo inspetor Tadeu Clouseau. A descida triunfal do Zé Carlos Kfouri pela Antônio Alves de Toledo com seu tradicional bonezinho na cabeça e o paletó no ombro. Não se pode esquecer-se do simpático e sorridente Boro, do Bar do Espanhol, e do sempre cortês Casemiro Rasteiro, da Casa Rádio. Difícil esquecer-se do Donato e Wilson, históricos porteiros do Bebedouro Clube. Inesquecíveis, muito engraçados e tipos únicos são os componentes da trupe gay assumida: Cidão, artista plástico, Rui Moreira Castro, com seu bigode bem cultivado, o gordinho Serginho, costureiro, e Ditinho, do coral do maestro Pedrinho Pellegrino. Para finalizar, os inesquecíveis e inseparáveis amigos da nossa turminha: Miguelão, o rei da prestação, Turco Fadala, o rei da mente criminosa, Casé Pellegrino, o homem singular, Ku Molly (Junior da Leyla), o homem que veio de Orlândia, Neto Teixeira, o nosso famoso Chumbrega, e Euler Santin, o nosso eterno aprendiz. Enfim, um desfile imenso e natural de tipos pitorescos, personagens interessantes, engraçados, folclóricos, de características próprias e hilárias que compuseram o cenário bebedourense e fizeram a história.
(Colaboração de Waldomiro Almeida Junior, bebedourense de coração, engenheiro civil com experiência em barragens e usinas hidrelétricas, atualmente atuando como consultor técnico).
Publicado na edição 11.038, quarta, quinta e sexta-feira, 7, 8 e 9 de outubro de 2026 – Ano 102


