

Durante décadas, nossa sociedade foi ensinada a procurar ajuda apenas quando a doença aparecia. Falamos pouco sobre prevenção, metabolismo, sono, alimentação, atividade física, saúde mental e uso racional de medicamentos. Construímos, ao longo do tempo, uma cultura centrada na reação à doença — e não na compreensão da saúde.
O resultado é visível: uma população progressivamente mais medicada.
Hoje, especialmente entre adultos e idosos, tornou-se comum o uso simultâneo de múltiplos medicamentos. Em muitos casos, essas terapias são necessárias, importantes e salvam vidas. No entanto, também observamos situações em que prescrições se acumulam ao longo dos anos sem revisões adequadas, criando cenários de polifarmácia que aumentam riscos clínicos, interações medicamentosas, efeitos adversos e perda de qualidade de vida.
A polifarmácia cresce silenciosamente.
E talvez uma de suas principais causas não seja apenas o envelhecimento populacional, mas também a ausência histórica de educação em saúde.
Grande parte da população nunca foi ensinada a compreender minimamente o funcionamento do próprio corpo, reconhecer alterações metabólicas precoces, entender efeitos adversos, interpretar o impacto do estilo de vida ou participar ativamente das decisões relacionadas ao tratamento medicamentoso.
Muitas vezes, o paciente apenas acompanha prescrições sucessivas sem conseguir compreender claramente a lógica terapêutica construída ao longo dos anos.
Quando falta informação, sobra dependência.
Isso não significa questionar a importância dos medicamentos. A medicina moderna avançou graças a terapias que controlam sintomas, estabilizam doenças e aumentam a expectativa de vida. O problema surge quando o cuidado em saúde perde espaço para automatismos terapêuticos, onde adicionar medicamentos se torna mais frequente do que revisar causas, hábitos, interações e necessidades reais do paciente.
Talvez o futuro da saúde dependa justamente de uma mudança cultural.
Uma população mais educada em saúde tende a participar mais das decisões clínicas, compreender melhor seus exames, reconhecer precocemente efeitos adversos, aderir com mais consciência às mudanças de estilo de vida e questionar excessos terapêuticos quando necessário.
Esse movimento também amplia a importância da ciência farmacêutica clínica, da revisão periódica das prescrições, da desprescrição racional e da individualização terapêutica — especialmente em uma população que envelhece e convive cada vez mais com doenças crônicas.
Nos próximos anos, talvez um dos maiores avanços da medicina preventiva não esteja apenas em novas tecnologias ou novos medicamentos, mas na capacidade de formar pacientes mais conscientes, profissionais mais integrados e uma sociedade com maior compreensão sobre saúde e uso racional de medicamentos.
Porque informação em saúde também é prevenção.
E talvez seja justamente ela que ajude a reduzir, no futuro, o peso silencioso da polifarmácia.
(Colaboração de Dr. Luiz Assunção, Farmacêutico Clínico).
Publicado edição 11.008, sábado a sexta-feira, 23 a 29 de maio de 2026 –101




