Quem Ama Cuida faz da química de Dora e André um trabalho de construção

Marcos Pitta

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Romance proibido - Na novela das 9, Mariana Ximenes e Henrique Barreira criam relação sustentada por camadas emocionais. Foto (Reprodução/Globoplay)

O primeiro beijo entre Dora e André não representa apenas o início de uma traição em Quem Ama Cuida. Ele marca o momento em que Walcyr Carrasco e Claudia Souto colhem o resultado de construção narrativa feita com paciência. Antes do romance, a novela apresentou quem são aquelas pessoas, quais vazios carregam e de que maneira suas trajetórias começaram a se cruzar. A química entre Mariana Ximenes e Henrique Barreira nasce dessa preparação.

 

Os autores não recorrem ao recurso fácil de aproximar dois personagens apenas porque um relacionamento proibido provoca impacto. Dora foi apresentada como uma mulher que retomou o controle da escola de dança da família e reencontrou parte de si que permanecia adormecida. Enquanto isso, Ademir sempre colocou o trabalho, o poder e suas ambições acima das relações pessoais. A novela nunca transformou esse casamento em uma sucessão de brigas, mas deixou evidente uma ausência silenciosa que abriu espaço para novos afetos.

 

É nesse cenário que André chega. O interesse entre os dois acontece desde o primeiro encontro, mas não se desenvolve pela urgência do desejo. Cresce por meio das conversas, dos olhares e da convivência. Henrique constrói um André que observa antes de agir. Mariana responde com uma Dora que tenta resistir ao sentimento antes de aceitá-lo. Os dois sustentam tensão permanente que antecede o beijo e faz dele consequência, não ponto de partida.

 

A química do casal também está na maneira como os atores dividem a cena. Um escuta o outro e juntos conduzem os diálogos que revelam as camadas de seus personagens.

 

Isso não transforma a traição em acerto moral. A novela não procura justificar escolhas nem absolver seus personagens. Procura compreendê-los. Ao tratar Dora e André como pessoas atravessadas por desejos, contradições e limites, Quem Ama Cuida constrói romance proibido que nasce menos do choque e mais da humanidade de quem o vive. É um elo perigoso e bem amarrado entre o DNA de um bom folhetim e a realidade e por isso este primeiro beijo encontra tanta força dramática.

Publicado na edição 11.018, sábado a terça-feira, 11 a 14 de julho de 2026 – Ano 102