Responsabilidade social das farmácias: vender medicamentos é suficiente?

Luiz Assunção

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Dr. Luiz Antônio da Assunção, farmacêutico clínico, CRF 23.110 SP, Pós-graduado em acompanhamento farmacoterapêutico; e em gastroenterologia funcional e nutrigenômica. Foto: Divulgação

Entrar em uma farmácia faz parte da rotina de milhões de brasileiros. Comprar um medicamento, medir a pressão, buscar orientação ou simplesmente tirar uma dúvida sobre Qual é a responsabilidade social da farmácia em uma sociedade que envelhece e utiliza cada vez mais medicamentos?

Vender medicamentos é, evidentemente, parte essencial da atividade farmacêutica. O acesso ao tratamento é fundamental e não pode ser desconsiderado. Mas talvez seja necessário olhar um pouco além do balcão. Hoje, encontramos nas farmácias pessoas idosas utilizando diversos medicamentos, pacientes com doenças crônicas, famílias que cuidam de parentes dependentes e pessoas que apresentam dúvidas sobre seus tratamentos.

Algumas não sabem exatamente para que serve cada medicamento. Outras enfrentam dificuldades para seguir corretamente o tratamento. Há ainda aquelas que convivem com efeitos adversos, interações ou problemas relacionados ao uso dos medicamentos sem sequer saber que existe relação entre o que sentem e aquilo que utilizam.

Nesse cenário, a farmácia pode exercer papel social muito maior. Não se trata de transformar a farmácia em consultório médico, nem de substituir qualquer outro profissional de saúde. Trata-se de reconhecer uma realidade: o farmacêutico está entre os profissionais de saúde mais próximos da população e a farmácia está entre os estabelecimentos de saúde mais acessíveis à comunidade. Essa proximidade representa enorme responsabilidade.

Quando o produto encontra a pessoa

Um medicamento não termina sua função no momento em que sai da farmácia. Ele continua sua trajetória dentro da casa do paciente. É ali que será tomado, combinado com outros medicamentos, alimentos e bebidas, utilizado por uma pessoa com determinadas características, doenças, hábitos e necessidades. É também ali que podem surgir problemas. Por isso, falar em responsabilidade social das farmácias significa pensar em iniciativas que ultrapassem a simples disponibilização de produtos.

Educação em saúde, promoção do uso seguro e inteligente dos medicamentos, acompanhamento de pacientes com doenças crônicas, prevenção, vacinação, monitoramento de parâmetros de saúde e serviços clínicos farmacêuticos são exemplos de possibilidades que podem aproximar ainda mais a farmácia da comunidade. E o envelhecimento torna essa discussão ainda mais necessária, pois o envelhecimento populacional traz novos desafios para os sistemas de saúde. A pessoa idosa frequentemente convive com múltiplas doenças e, consequentemente, com múltiplos medicamentos. Quanto maior a complexidade do tratamento, maior também a necessidade de compreensão, acompanhamento e coordenação do cuidado.

No envelhecimento, o medicamento não pode se transformar em mais um fator de fragilidade. Ele deve contribuir para controlar doenças, preservar funcionalidade e, principalmente, ajudar a pessoa a manter sua autonomia e qualidade de vida. Nesse contexto, o farmacêutico pode exercer uma função que vai muito além de explicar como tomar um comprimido. Pode ajudar o paciente a compreender o próprio tratamento, identificar situações que mereçam atenção e, quando necessário, encaminhar essas questões ao médico ou a outro profissional responsável.  É uma atuação que coloca a pessoa no centro do cuidado.

A farmácia como espaço de saúde

Talvez estejamos diante de uma mudança importante no conceito de farmácia. De um lado, continuará existindo a farmácia que garante acesso aos medicamentos e aos produtos de saúde. De outro, cresce a possibilidade de uma farmácia que também seja espaço de educação, prevenção, acompanhamento e cuidado. Uma espécie de hub de saúde da comunidade. Isso não diminui a importância da atividade comercial. Ao contrário. Uma farmácia socialmente responsável pode ser também uma farmácia economicamente sustentável.

A oferta de serviços clínicos pode criar novas possibilidades de relacionamento com a população, fortalecer a confiança no estabelecimento e gerar valor para pacientes, famílias e para o próprio negócio. Mas é importante que a lógica seja invertida. Não devemos pensar apenas em quais serviços podem ser vendidos. Precisamos primeiro perguntar: Quais necessidades de saúde da comunidade podemos ajudar a atender? Essa mudança de perspectiva faz toda a diferença. O futuro pode estar na proximidade. Talvez uma das maiores vantagens da farmácia esteja justamente naquilo que ela já possui: proximidade. A pessoa não precisa esperar meses por uma consulta para entrar em uma farmácia. Ela passa em frente a ela todos os dias. Está no bairro. Faz parte da comunidade. E muitas vezes conhece o farmacêutico há anos. Essa relação de proximidade, quando acompanhada de preparo técnico, ética e responsabilidade, pode se transformar em poderosa ferramenta de promoção da saúde.

Por isso, a discussão sobre responsabilidade social das farmácias não deveria ser vista como questão secundária. Ela diz respeito ao futuro da própria profissão farmacêutica e ao modelo de cuidado que queremos construir. Talvez seja por isso que eu acredite que a responsabilidade social da farmácia comece justamente quando olhamos para além do medicamento. Porque, do outro lado do balcão, não existe apenas um cliente. Existe uma pessoa. Às vezes, um filho comprando os medicamentos da mãe. Um marido preocupado com a esposa. Uma filha tentando entender a receita do pai. Um idoso que toma vários medicamentos e já não sabe muito bem para que serve cada um deles.

São histórias que passam diariamente pelas farmácias. E talvez essa seja uma das grandes oportunidades que temos pela frente: fazer com que a farmácia continue sendo lugar de acesso aos medicamentos, mas que também seja o lugar onde as pessoas encontrem escuta, orientação e cuidado.

No fim das contas, vender um medicamento resolve uma necessidade. Cuidar de quem vai utilizá-lo pode fazer uma diferença muito maior.

(Colaboração de Luiz Assunção, Farmacêutico Clínico).

Publicado na edição 11.026, quarta, quinta e sexta-feira, 19, 20 e 21 de agosto de 2026 – Ano 102