Sabedoria na simplicidade

“Vivi trancos e barrancos (...) mas tudo valeu a pena”

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Lugar de paz – Em seu cantinho de artesanato, em meio às nove máquinas de costura, dona Cecília passa seus dias, sempre com um sorriso no rosto e a alegria que escolheu ter. (Gazeta)

Com alegria e amor pela vida, a entrevistada do Gente ensina a fazer muito com pouco. A sabedoria que expressa com sua simplicidade é uma lição de vida. Não é toa que dona Cecília Lima de Souza é tão querida por todos. A mãe do sargento Joaquim, do Corpo de Bombeiros, é também exemplo de força e perseverança.
Aos 80 anos, com oito filhos, 30 netos e 27 bisnetos, dona Cecília contagia a todos com seu sorriso. Quem a conheceu nas feiras de artesanato pela cidade, já sabe que com ela não tem tempo ruim.
Sua infância difícil, no interior da Bahia e a criação simples, sem estudos, não a impediu de lutar por seus sonhos. Vivendo em Bebedouro há 48 anos, dona Cecília encontrou na cidade as oportunidades que procurava e pretende viver aqui, pelo resto de seus dias.

Gazeta de Bebedouro – Quando e onde a senhora nasceu?
Dona Cecília – Nasci em Guanambi, no interior da Bahia, em 16 de maio de 1939.

Gazeta de Bebedouro – Quem são seus pais? Tem irmãos?
Dona Cecília – Meus pais, já falecidos, chamavam-se Luiz Souza Lima e Maria Clemência de Carvalho. Os dois trabalharam na roça por toda a vida. Morávamos no terreno do proprietário do sítio e cuidávamos da terra, para não pagar aluguel.
Somos sete irmãos, sou a segunda. A mais velha é Francisca, depois eu, Noelito, Maria de Lourdes, José, Edivino e Eva. Quatro mulheres e três homens.

Gazeta de Bebedouro – Como foi sua infância? Onde estudou?
Dona Cecília – Passei minha infância trabalhando. Aos sete anos, já ajudava meus pais, na roça. Lembro-me que meu pai cavava os buracos e a função dos filhos era colocar as sementes, para plantar os mantimentos, como feijão, arroz e algodão. Mas eu gostava de trabalhar.
Como não sabíamos contar, minha mãe nos ensinou da seguinte forma: primeiro colocava três sementes, depois mais duas, para somar cinco. Eu gostava muito de brincar, mas não tinha tempo, porque trabalhava demais.
De criança, não estudei. Minha mãe, que sabia ler, nos ensinou a assinar o nome. À noite, ela acendia o lampião, estendia o papel de pão em uma tábua e com um pedaço de carvão aprendíamos a escrever nossos nomes.
Quando era época, meus irmãos e eu apanhávamos algumas flores que soltam tinta azul anil, colocávamos no pião, socávamos até soltar a tinta e com a pena da galinha, nós usávamos a tinta para escrever. Coitadas das galinhas (risos).
Anos depois, quando já era avó e vivia em Bebedouro, fui à escola pela primeira vez, na EJA (Educação de Jovens e Adultos), na escola do Jardim Três Marias.

Gazeta de Bebedouro – O que mais se lembra da época de infância? E dos amigos?
Dona Cecília – A vida toda gostei de costurar e aprendi desde criança, com minha mãe. Quando dava tempo, meus irmãos e eu brincávamos de “vá de virar”, em que meu tio batucava o tambor e a gente brincava em volta, também pega-pega e rabo da gata. Mas o que eu gostava mesmo, era de dançar (risos). Adorava quando tinha festa para poder dançar, mas meu pai era rígido e não deixava.
Tive poucos amigos, que nos visitavam e brincavam conosco. Lembro-me de três amigos, três irmãos, Sebastião, Geraldo e “Piriquito”, que viviam na propriedade vizinha.

Gazeta de Bebedouro – Qual profissão exerceu?
Dona Cecília – A vida toda eu costurei. Como disse, aprendi com minha mãe, aos 14 anos. Ela sentava na máquina para costurar e eu ficava ao lado observando. A primeira calça que fiz para meu irmão, eu cortei o bolso na altura da canela e precisei remendar (gargalhadas). Mas não desisti e continuei costurando.

Gazeta de Bebedouro – É casada? Como se conheceram?
Dona Cecília – Meu esposo, já falecido, é Germino Ferreira de Souza. Minha mãe fazia festa no Dia de São José e, em uma delas, ele foi convidado por Sebastião, o amigo que morava no sítio ao lado. Germino disse para Sebastião que queria me namorar, mas na época, namoro era só de olhares, não podia chegar perto.
Se ele fosse me visitar, sentava cada um de um lado da mesa e meu pai sentava no banquinho, ao lado, fingindo que dormia, pra espiar o que a gente estava fazendo (risos).
Numa missa de Quarta-feira de Cinzas, na Semana Santa, ele segurou minha mão, dentro da igreja e meu pai já queria fazer o casamento. Casei-me entre 18 e 20 anos de idade. Já faz tempo, não me lembro ao certo (risos).

Gazeta de Bebedouro – Tem quantos filhos? Como é sua relação com eles?
Dona Cecília – Tive nove filhos, mas uma morreu aos 11 meses e criei oito: Vitalina, Maria, Irani, José, Joaquim, Jair, Gilmar e Marlúcia. Os dois mais novos também já se foram. Mudei-me para Bebedouro há 48 anos, em busca de melhores condições de vida. Vim com sete filhos e tive a mais nova aqui.
Minha relação com meus filhos é muito boa e muito respeitosa. De pequenos, todos foram criados debaixo da minha saia e só saíram de casa para casar. Só o mais novo, Gilmar (falecido), que saiu de casa aos 14 anos para jogar bola. Era zagueiro e passou por vários times do país, como Rio Branco, Americana, Palmeiras, Internacional de Porto Alegre e Criciúma.
Único problema é que eles não me visitam muito, mas entendo, porque todos são muito trabalhadores e cada um tem sua vidinha. José vive nos fundos de casa, mas sai cedo e volta de noite, por causa do trabalho. Já Maria, é minha companheira de feira.

Gazeta de Bebedouro – Como é ter 30 netos e 27 bisnetos? A senhora sabe os nomes de todos?
Dona Cecília – É gostoso demais! Cada um que nasce, me sinto mais jovem e com mais disposição para viver. Eu não me sinto velha, às vezes paro e penso “será que já vivi 80 anos mesmo?”, porque me sinto tão jovem, ainda quero viver tanta coisa…
Saber os nomes, até sei, mas não lembro porque são muitos (risos). Às vezes confundo até o nome dos filhos (risos).

Gazeta de Bebedouro – É melhor ser mãe, avó ou bisavó?
Dona Cecília – Todos são muito bons, cada um de um jeito. Eu amo ser mãe e cada filho que chegava era uma alegria, mesmo em meio a dificuldade. Quando os netos chegaram, foi uma alegria ainda maior. Eu nem imaginava que podia sentir uma alegria tão grande.
Quando me vi bisavó, nem acreditei. Saber que a família que eu criei, com tanto aperto, está crescendo… não tem valor no mundo que pague. Agora só aguardo ser tataravó. Ainda quero estar viva para ver meus tataranetos e não deve demorar, porque já tenho bisneto de 16 anos.

Gazeta de Bebedouro – Um de seus filhos é sargento do Corpo de Bombeiros de Bebedouro. A senhora já sentiu medo enquanto ele cumpre seu dever? E as profissões dos outros filhos?
Dona Cecília – Joaquim é um orgulho, além de ser muito querido por todos na cidade, mas já senti muito medo sim, pelo risco da profissão dele. Cada coisa que acontece e que ele tem que socorrer, fico pedindo a Deus que o proteja.
Dos meninos, todos têm empregos perigosos. Joaquim é bombeiro, José é empreiteiro e Jair é motorista de caminhão. Todos arriscam suas vidas todos os dias, mas tem que trabalhar, né?! Só as meninas que são mais tranquilas. Vitalina trabalha na prefeitura, ensinando bordado; Maria faz artesanato e me acompanha nas feiras e Irani tem uma loja de produtos de beleza.

Gazeta de Bebedouro – Como é seu dia a dia?
Dona Cecília – Antes, eu levantava bem cedo, 6h estava de pé. Hoje, me dou o prazer de acordar um pouquinho mais tarde. Levanto por volta das 8h, tomo meu café, sento na máquina e só paro para comer. Ali me realizo e me distraio. Quando canso, vou para o computador jogar paciência (risos), que meus netos me ensinaram. No início da noite, sento na calçada para bater papo com as vizinhas.

Gazeta de Bebedouro – A senhora faz artesanato. Como avalia o espaço dado para os artesãos, em Bebedouro? E a Feira da Família, o que a senhora acha?
Dona Cecília – Já costurei roupas, lingeries, mas hoje, faço minha feirinha todo segundo domingo do mês com o Bebedouro das Artes e gosto muito. É dom demais o espaço dado para os artesãos na cidade, para que cada um possa melhorar sua renda.
A Feira da Família foi uma das melhores ideias que a Prefeitura teve, porque o espaço é gostoso e a gente tem mais oportunidade de trabalhar.
Às vezes eu vejo as meninas reclamando que vai para a feira e vende pouco, mas eu estou sempre feliz. Só de sair de casa, distrair a cabeça, ver gente, conhecer pessoas novas e rever amigos, já é bom demais. Se vender, é lucro (risos).

Gazeta de Bebedouro – O que mais gosta e o que menos gosta em Bebedouro?
Dona Cecília – Cheguei a Bebedouro com sete filhos e um saco de alumínio, sem conhecer ninguém. Passei fome e frio, mas aqui conquistei minha casa, amigos e aqui minha família cresceu.
O que mais gosto aqui são as pessoas generosas, que muito me ajudaram, quando cheguei. Bebedouro é a cidade coração mesmo. Aqui quero viver o resto da minha vida. Amo essa cidade e aqui me sinto feliz.
O que não gosto em Bebedouro, é o que não gosto no mundo inteiro: as pessoas que querem o mal dos outros e escolhem a vida errada.

Gazeta de Bebedouro – Quais as diferenças entre a Bebedouro do passado e de hoje?
Dona Cecília – Bebedouro mudou e cresceu muito, com mais oportunidades. A vida mudou para todos e aquela pobreza que já vi, no passado, melhorou também. Bebedouro tem trabalho para todo mundo, basta procurar.
Mas com o crescimento da cidade, o perigo também cresceu. Antes, as casas não tinham muros, podia deixar a casa aberta e ninguém mexia. Hoje, vivo trancada. Mas esse problema não é só de Bebedouro, é do país inteiro.

Gazeta de Bebedouro – O que significa ter 80 anos?
Dona Cecília – 80 anos não são 80 dias… significa ter muita vivência, muitas dores e muitas alegrias. É uma benção de Deus! Idade está na cabeça de cada um e eu não me sinto uma velha de 80 anos, me sinto nova e forte. Tenho uma tia, que viveu até 110 anos e se for pra eu chegar a esta idade, eu quero, contanto que eu esteja com saúde. Não tenho medo de morrer, mas tenho medo do sofrimento.

Gazeta de Bebedouro – Qual o resumo das oito décadas de sua vida?
Dona Cecília – Vivi trancos e barrancos, passei fome e frio, perdi muito e ganhei muito também, mas tudo valeu a pena. Se fosse para viver tudo de novo, eu viveria, porque a vida é uma só e temos que aproveitar o máximo dela. Deus deu uma cruz para cada um carregar e eu carrego a minha com muita fé. Enquanto eu puder fazer minha comidinha, costurar e dançar, mas bem pouquinho, porque não posso exagerar… eu quero viver.

Gazeta de Bebedouro – Qual a receita da vida longa?
Dona Cecília – A receita é trabalhar, porque quanto mais a gente trabalha, mais vontade de viver a gente tem.

Gazeta de Bebedouro – A senhora é sempre alegre e sorridente. O que a faz feliz?
Dona Cecília – Já passei muita coisa em minha vida, já tive momentos em que dava vontade de desistir, mas nunca desanimei. Perdi meu companheiro da vida de enfarto e acompanhei todo dilema até receber a notícia do falecimento. Perdi um filho aos 30 anos, com uma carreira linda de jogador de futebol, em trágico acidente e participei até mesmo do resgate. Minha filha mais nova, que vivia no Mato Grosso do Sul, também enfartou jovem. Além de toda pobreza e dificuldade que passei (emocionada).
Eu teria motivos para ficar triste, mas para quê viver uma vida inteira me lamentando, se tenho a escolha de levantar minha cabeça e seguir a vida feliz?
Olhando para tudo o que vivi, me sinto feliz e rica. Tenho um teto para morar, comida na geladeira, tenho meu trabalho, que muito me faz feliz e tenho uma família grande. O que mais eu iria querer? A gente não precisa de muita coisa para viver, só precisa ter vontade de viver.
Fechar a cara e chorar não vai resolver, por mais que as dores estejam nos corroendo por dentro. A morte não escolhe rico, pobre, preto ou branco… todos um dia iremos, mas enquanto temos que viver, que vivamos felizes.

Gazeta de Bebedouro – O que dá sentido à sua vida?
Dona Cecília – Trabalhar (risos). A família, também, claro, mas cada um tem sua vida e seus planos. Mas o que me dá vontade de viver, de levantar todo dia, é sentar na minha máquina e fazer meus artesanatos. Ê coisa boa! Me sinto bem fazendo minhas artes, cada dia invento uma coisa diferente e assim sou feliz.

Publicado na edição nº 10439, de 26 a 29 de outubro de 2019.