Soluções problemáticas

José Renato Nalini

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O ser humano precisa aprender a respeitar a natureza. A pretensão de dominá-la não se mostrou exitosa. Quando ele destrói florestas, aplaina colinas, inverte o curso dos rios, tenta retificá-los, o que consegue é o efeito bumerangue. Mais dia, menos dia, a natureza vence o homem.

Um exemplo muito nosso é a tentativa de conquistar mais solo edificável, subtraindo espaço ao mar. De repente, as ondas avançam e retomam o que sempre foi delas. Isso já acontece em várias partes do litoral tupiniquim. E continuará a acontecer, principalmente porque o aquecimento global desequilibra o nível dos oceanos, fazendo-os ocupar territórios que os homens pensam que são deles.

O fenômeno é mundial. A jornalista e escritora Elizabeth Kolbert, em seu livro “Sob um céu branco: a natureza no futuro”, narra o que aconteceu em Chicago. O rio de mesmo nome tornou-se, como é comum, o condutor de esgotos, de móveis e geladeiras descartadas e a solução foi inverter seu curso natural. Em vez de desaguar no lago Michigan, foi jogar suas águas poluídas no rio Mississipi. E então as poluições se juntaram e atraíram espécies que não dividiam o mesmo habitat. Surgiram outras invasoras e o desequilíbrio ecológico foi séria ameaça para uma fauna já a caminho da extinção.

O que se fez? Solução milagrosa: importar carpas asiáticas que seriam auxiliares no biocontrole dos rios, pois especialistas em consumir ervas daninhas.

Verdade que, no início, elas ajudaram. Mas a sua proliferação mostrou-se outro grande perigo. Para que a multiplicação não continuasse, instalaram-se barreiras eletrificadas. Elas serviram para matar as carpas asiáticas, mas também todas as outras espécies da fauna local. Houve casos de tamanha eletrificação, que o risco de matar humanos não foi excluído.

Toneladas de carpas capturadas foram encaminhadas para a produção de fertilizantes. Parte delas é também comercializada e um chef francês, Phillipe Parola faz com as carpas uma espécie de bolinho de peixe, que parece uma almôndega gigante.

Aqui no Brasil, fala-se em implementar fazendas para a piscicultura de tilápia. Espécie exótica, também de fácil proliferação. Vai acabar com aquelas espécies nativas, mas quem é que se importa com isso?

*José Renato Nalini é Reitor da Uniregistral, docente da Pós-graduação da Uninove e Presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022.