

A pouco tempo atrás dei vazão a um desejo antigo que penso vir desde criança quando eu chegava à escola Paideia cantarolando: ter uma vitrola de vinil. A música sempre fez parte da minha vida, fazendo com que eu pudesse me conectar para expressar emoções e sentimentos. Lembro as idas e vindas da Feira Livre de domingo que acontece na Praça da Prefeitura para comprar CD´s dos mais diversos artistas. O tempo passou até que pude adquirir meu próprio vinil. E assim, acordando em uma quarta-feira no Rio de Janeiro antes de ir trabalhar, decidi escutar durante meu café o álbum: Meus Caros Amigos de 1976, do cantor e compositor Chico Buarque. A última música do Lado A do vinil chama-se “Vai Trabalhar, Vagabundo” e é sobre ela que gostaria de transcrever algumas inquietações.
Como bem descrito no Podcast “Essa música tem história”, o trabalho na contemporaneidade é utilizado por nós como forma de identidade. Ao conhecermos alguém, rapidamente questionamos: o que você faz? Esse “faz” é compreendido como emprego, profissão ou estudo. Assim, ao conseguir responder para a pessoa “eu sou psicólogo”, rapidamente me traz um alívio por conseguir definir quem eu sou para o outro. É por isso que em psicoterapia, quando peço ao paciente me dizer quem ele é para além do trabalho, instantaneamente ocorre dificuldade na resposta. Não raramente, sentimos uma “pontinha de orgulho” quando dizemos estar na “correria” e “atolados” de trabalho, pois isso demonstra que somos ocupados e produtivos!
Através da ironi, Chico começa a dar conselhos para que o malandro vá trabalhar, como nos trechos “Vai trabalhar, vagabundo…vai trabalhar, criatura…Prepara o teu documento…”. Em seguida, consequentemente ao ato de trabalhar, o cantor orienta ao trabalhador se preparar para as consequências, como “pode esquecer a mulata…pode esquecer o bilhar…pode apertar a gravar…vai te enforcar, vai te entregar, vai te estragar”. Com esse jogo irônico da música, Chico critica a rotina opressiva do trabalhador, mostrando que o verdadeiro castigo está em submeter ao trabalho formal exaustivo que sufoca o empregado e apaga a sua identidade. É como se, para ele, a vagabundagem fosse uma forma de se subverter ao sistema imposto.
Não escrevo esse texto para concordar ou rebater a crítica social imposta pelo cantor. Contudo, me chama atenção ao ver que em 2025 nós tivemos mais de meio milhão de afastamentos dos trabalhadores por questões relacionadas à saúde mental, sendo depressão e ansiedade como os principais motivos, seguidos de uma alta na síndrome de Burnout. Na clínica, venho escutando muitos relatos de esgotamento mental devidos a cargas horárias excessivas, pressão constante por metas, assédio moral e dificuldade de separar a vida pessoal com a vida profissional, principalmente em casais que possuem filhos. Se Chico Buarque está certo ou não ao fazer essa crítica, não sei… mas acredito que devemos analisar e pensar com mais calma sobre o momento atual que estamos vivendo e como isso tem interferido em nossas relações e qualidade de vida… Mas se nada disso fizer sentido para você, apenas digo: ‘Vai trabalhar, vagabundo!”.
(Colaboração de Pedro Henrique Fernandes Medeiros, Psicólogo Clínico pela PUC-Campinas, mestrando em Psicologia Social na Universidade Estadual do RJ; cursa especialização lato sensu em Psicologia Clínica, no Instituto de Fenomenologia-Existencial do RJ, especialista em Intervenção na Autolesão, Prevenção e Pósvenção do Suicídio pelo Instituto Vita Alere).
Publicado na edição 11.043, sábado a terça-feira, 24 a 27 de outubro de 2026 – Ano 102




