A bioluminescência inovativa

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Em função da carência de matrizes energéticas diversificadas e sustentáveis que possam dar conta do consumo exigido por uma população em constante crescimento, alguns países da Europa adotaram medidas restritivas para centros urbanos que limitam a utilização de energia elétrica para determinados fins e em determinados horários. É o caso da França. Desde 2013 o governo daquele país promulgou uma lei que proíbe a iluminação de vitrines de lojas e escritórios durante a madrugada. A ideia francesa é reduzir não só o consumo de energia, mas também minimizar as emissões de gás carbônico. As exceções ficam por conta das datas festivas, como o natal, aplicadas somente a regiões com alto índice de atividade turística e cultural.
Se alguns veem as medidas restritivas como problemas, outros as enxergam como grandes oportunidades. É o caso da startup francesa Glowee.

Futuro brilhante

Com questionamentos que poderiam fazer Thomas Edison revirar no túmulo, pesquisadores da Glowee iniciaram uma (ainda) pequena transformação no modo de se pensar a criação de energia elétrica para fins de iluminação em ambientes públicos e privados. Algo como “um futuro brilhante poderia ser provido por organismos vivos?” serviu de centelha para a empresa iniciar estudos envolvendo reações químicas reguladas por genes que produzem luzes naturalmente. Esse é o chamado efeito bioluminescente, cujos organismos marinhos, em sua maioria, produzem no fundo dos mares.
O processo de criação da Glowee, na essência, é simples: bactérias do tipo Aliivibrio fischeri, depois de receberem o gene da luminescência de lulas, são cultivadas em uma solução de açúcar e oxigênio onde se proliferam rápida e exponencialmente. Em quantidade pré-definida para uso, são arranjadas em invólucros de resina aderentes que emitem uma luz de baixa intensidade e podem ser grudados em superfícies como paredes, placas de sinalização, mobílias urbanas e residenciais, vitrines de lojas e veículos, entre outras.
Atualmente as bactérias apresentam autonomia de luminescência de algumas horas, embora a empresa esteja trabalhando para estender esse período para semanas e até meses e conquistar um mercado consumidor maior do que o atual.

Polêmicas à vista

Embora a empresa Glowee deixe claro que esse processo de luminescência seja uma alternativa que não substitui a oferta de energia elétrica convencional, embora esse processo seja considerado sustentável sob o ponto de vista da conservação do meio-ambiente, e embora o assunto ainda esteja em seus primórdios de criação, já tem recebido algumas críticas. Exemplo vem de Edith Widder, pesquisadora da Ocean Research & Conservation Association dos Estados Unidos, que põe em dúvida a viabilidade do projeto, argumentando os altos custos de produção e manutenção das bactérias perante a maioria das necessidades comerciais de iluminação. Quando tal alternativa é comparada, por exemplo, à eficiência e baixo custo das lâmpadas LED, não há senso que consiga resistir.
Polêmicas a parte, o fato é que o mundo não pode se pautar eternamente nas tecnologias existentes. Deve sim trilhar, sempre que possível, o caminho de novas realidades e da inovação. Para se ter ideia da importância desse projeto, a grande estatal francesa de energia elétrica ERDF faz parte do grupo de empresas que o estão financiando, por mais paradoxal que possa parecer. E a Glowee aposta que no médio prazo vai melhorar muito a qualidade do produto final entregue e que ele ainda vai ser um divisor de águas no cenário da sustentabilidade do planeta. Caso você se interesse pelo tema, acesse o link http://www.glowee.eu/.

Publicado na edição nº 9976, de 21 a 25 de abril de 2016.