
Há alguns anos, passeando por uma das muitas livrarias de São Paulo, me deparei com um livro chamado “A Diversidade da Vida”, de Edward Wilson. Não fosse o título desafiador e uma capa cativante contendo alguns insetos coloridos, teria passado despercebido.
No entanto, quando me dei conta já havia lido as informações das orelhas do livro, o prefácio, e a biografia do autor. Em poucos minutos havia feito um reconhecimento geral da obra e sem dúvida a levei para casa na esperança de um dia ter tempo de lê-lo na sua essência. Confesso que até hoje ainda não o fiz, como tantos outros livros que esperam numa fila pacientemente.
Mas, mesmo com apenas um pequeno vislumbre, pude observar que Wilson dá ao menos um recado aos leitores, velado sim, mas fundamental: somos milhões no planeta Terra e o ser humano é apenas mais um, a despeito de sua destacada inteligência.
Deve ter sido um trabalho descomunal para Wilson resumir em umas poucas páginas, mais do que algumas informações sobre espécies de insetos, mas a história de toda a diversidade de espécies que existe na natureza. Algumas encadernações do tipo Atlas já fizeram trabalho semelhante com outros assuntos, mas era a primeira vez que havia visto uma obra dedicada exclusivamente a esse tema da diversidade.
Se a casualidade me levou até esse livro, não por menos a casualidade me levou a outra obra com objetivos semelhantes, só que em meio eletrônico ao alcance de um click. Trata-se da Enciclopédia da Vida, obra ainda inacabada (se é que um dia ela vai ter fim), disponível na Internet pelo endereço www.eol.org.
Essa obra foi idealizada para ajudar no estudo e na compreensão da biodiversidade mundial e de acordo com os autores, o seu impacto pode ser comparável ao que sucedeu quando da invenção do microscópio no século 17. Ela pretende ser acessível a todos: cientistas, estudantes, aqueles com muito conhecimento, aqueles que conhecem muito pouco, enfim, aos internautas que têm alguma curiosidade sobre o assunto.
Sobre a primeira versão
As primeiras páginas do que se pretende tratar como enciclopédia entrou no ar em 2008 por base de um consórcio de museus e outras instituições científicas, como o Smithsonian Institute, de Washington. O interessante é que mesmo tendo origem nos EUA, qualquer cidadão do mundo com acesso à Internet tem a possibilidade de consultá-la, com suporte a múltiplos idiomas, incluindo o português.
Na versão atual estão disponíveis informações, imagens e dados de atributos validados por cientistas para praticamente todas as mais de duas milhões de espécies conhecidas pela ciência, superando amplamente a marca inicial de apenas um milhão catalogado no início do projeto. É possível ter também imagens dos animais e insetos em alta resolução e coloridas, delírio para os estudantes de colégio que têm que fazer aquele trabalhinho de biologia no final de semana.
Quando a enciclopédia estiver mais evoluída ela irá contar com um conjunto de informações detalhadas sobre as espécies, entre elas os sinônimos, as origens, a distribuição pelo mundo, o habitat, a sistemática de evolução, a classificação, a toxidade, e várias referências literárias para consultas adicionais.
Não há dúvida de que iniciativas como essa trazem a ciência, e neste caso específico a biologia, para bem perto da população com acesso à Internet. É certo também que o Brasil, embora figurando na quinta posição global em número absoluto de usuários de Internet, ainda carece de infraestrutura para levar a informação eletrônica ao mais simples cidadão brasileiro. É uma longa luta, mas vale a pena.
Só para fechar as casualidades, quem esteve por trás deste projeto foi o próprio Edward Wilson, que faleceu em 2021.
E para o querido leitor que se identifica com esse tema, deixo aqui um vídeo de dois minutos sobre a nossa extensa biodiversidade com alguns sinais de alerta. Confira!
https://www.youtube.com/watch?v=Whj_n_O-gr0
(Colaboração de Wagner Zapparoli, Doutor em Ciências pela USP, Professor Universitário e Consultor em Tecnologia da Informação)



