Basta a primeira tragada

Wagner Zaparolli

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É muito comum observar fumantes dissimulados dizendo que não são viciados e que param de fumar quando bem quiserem, como se fossem de fato donos da situação. Se não for 100% dos casos, podemos dizer que um bom percentual deles está completamente enganado ou iludido. Ao tentarem parar, sentem o poder da abstinência (inquietação, nervosismo, irritabilidade, dificuldade de se concentrar) e raramente conseguem sobreviver a ela ilesos, ou seja, sem dar uma nova tragada.

É fato que o cigarro diminui o tempo de vida do fumante, diminui a sua qualidade de vida, e normalmente oferece uma morte triste e dolorosa. Não faça isso, meu caro leitor, mas se em sua sã consciência você colocasse um saco plástico em sua cabeça e rosto e o vedasse para que o ar não entrasse pelo nariz e boca, em poucos segundos ficaria completamente sufocado, desesperado por um punhado de ar.

Com raras exceções, o fumante, conforme o tempo passa, sente o seu pulmão perder as forças para bombear o oxigênio para o resto do corpo, e mesmo que queira, não consegue “puxar” o tão necessitado ar. A sensação é terrível, inimaginável para qualquer ser humano.

A Organização Mundial da Saúde não considera doente somente aquele fumante que apresenta sintomas de uma doença definida, como enfisema ou algum tipo de câncer. Para ela, qualquer viciado em tabaco já é um doente.

Inúmeras campanhas pelo mundo têm gerado leis que restringem o uso do cigarro em ambientes fechados, como escritórios, instituições de ensino e até bares e restaurantes. Além disso, a restrição à propaganda enganosa da indústria tabagista não está conseguindo tanto espaço quanto tinha no passado, para iludir principalmente os jovens que ainda não têm um padrão comportamental estabilizado, o que em tese, facilitaria a introdução da idéia de que fumar é bacana e está na moda.

Entretanto, se os jovens não são convenientemente preparados pela família ou esclarecidos pela escola, nas baladas do cotidiano o apelo para a iniciação é inegável, não só para as drogas e bebidas, mas principalmente para o primeiro cigarro.

 

Novos estudos

Não é exagero observarmos a existência da crença da opinião popular ou até mesmo da opinião médica especializada, que diz que as pessoas fumam basicamente por prazer e que com o tempo vão se tornando dependentes até que o hábito atinja uma freqüência preocupante de cerca de cinco cigarros por dia, quando a nicotina passa a ser presença constante no sangue.

No entanto, novos estudos começam a indicar que talvez não seja necessário um volume grande de cigarros e um longo tempo do hábito, para o cigarro fazer mais um dependente. Basta um cigarro!

Joseph R. DiFranza é um pesquisador da faculdade de medicina da University Massachusetts, nos Estados Unidos, que tem feito valiosas pesquisas com pessoas e com animais em laboratório, cujos resultados têm revelado que já no primeiro cigarro o cérebro rapidamente desenvolve adaptações para compensar os efeitos da nicotina. Quando há a falta da famigerada, essas adaptações provocam os desagradáveis sintomas da abstinência, o que leva quase que invariavelmente, à desesperada busca por outro cigarro.

DiFranza compreende que essa teoria de sensibilização-homeostase que envolve os seus estudos ainda carece de mais aprofundamento. Por isso mesmo sinaliza que ela poderá provocar certo ceticismo entre os pares cientistas a curto prazo, mas adverte que esse é um caminho muito provável e apela aos governos que insistam em campanhas antitabagistas especialmente aquelas dirigidas ao público jovem, mais suscetível à traiçoeira primeira tragada.

Apesar da queda no número de fumantes no mundo, 1,25 bilhão ainda são usuários de tabaco, aproximadamente um a cada cinco adultos. Desses, quase 1 bilhão são homens e mais de 200 milhões, mulheres.

De acordo com a OMS, o tabaco é responsável por mais de 8 milhões de mortes por ano, sendo que 7 milhões são resultado do uso direto do produto. Além disso, mais de 1,2 milhão de mortes ocorrem em não-fumantes expostos à fumaça alheia.

E para quem chegou até aqui, vale a pena ver esse brevíssimo vídeo sobre o tema https://www.youtube.com/watch?v=D8RE-JL-oMY.

 

(Colaboração de Wagner Zapparoli, Doutor em Ciências pela USP, Professor Universitário e Consultor em Tecnologia da Informação).

Publicado na edição 11.031, sábado a sexta-feira, 5 a11 de setembro de 2026 – Ano 102