A incrível história do coração

Wagner Zaparolli

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Na ciência, “certeza” é uma palavra duvidosa. Teorias equivocadas perduraram por séculos como verdades absolutas, enquanto ideias revolucionárias sofreram os percalços do conservadorismo para se firmarem como válidas. Esse embate talvez seja o maior símbolo da ciência, que a seu modo e a seu tempo, sempre tentou iluminar as mentes humanas.

Como ocorreu com a filosofia natural e com a astronomia, alguns conceitos da medicina foram definidos na Grécia Antiga, bem antes da era cristã, e perduraram inalterados por dezenas de séculos. Muito dessa perenidade se deu devido ao apoio da igreja, que ao adotar uma idéia dita científica, automaticamente a transformava numa tautologia na qual os fiéis ou acreditavam ou eram queimados na fogueira.

Hoje, lendo os escritos de Galeno sobre o corpo humano, notamos os equívocos de suas definições e observações que mesmo assim, duraram 15 séculos. Evidentemente não podemos dissociar o pensamento de Galeno de sua época e de seu contexto, e a nós cabe aqui enaltecê-lo pelas grandes contribuições que fez à medicina, não só como médico, mas principalmente como um tenaz estudioso que legou grandes obras à posteridade.

 

O sistema circulatório

É difícil precisar quando Galeno compôs a idéia do sistema circulatório humano, mas tudo indica que foi em meados do século II d.C. Embora com boas observações, a descrição do mecanismo era falha, a começar pela criação do sangue, que a seu ver, nascia no fígado pela “seiva” do alimento digerido. Também se equivocou ao não perceber que o sangue passava pelo pulmão para captar o ar (oxigênio). Ele acreditava que o sangue fluía da câmara direita do coração para a esquerda, e nesse processo, o sangue captava o tão necessário ar que alimentava o corpo.

Hoje essa idéia é risível, mas por muito tempo ela foi tida como a única “verdade”, embora alguns estudiosos tenham tentado corrigir os equívocos em vão. Foram necessários quase 15 séculos para que um sistema circulatório como o conhecemos hoje, pudesse ser mentalizado e descrito pormenorizadamente.

 

Corrigindo os equívocos

O autor da proeza foi o médico inglês Willian Harvey, dono de uma curiosidade infinita e de uma tenacidade de dar inveja. Diz a história que boa parte dos estudos que o levaram a refutar corretamente as idéias de Galeno, foram realizados nas longas madrugadas londrinas, já que durante o dia servia como médico do rei James I. Esse empenho o levou em 1628 a lançar um pequeno livro de 72 páginas na Feira de Frankfurt, Alemanha, com o título “A propósito do movimento do coração e do sangue nos animais”, no qual descrevia detalhadamente o papel do coração e do mecanismo do sistema circulatório.

Dizia ele “o sangue se movimenta nos seres vivos em um círculo em virtude de um certo movimento circular e está permanentemente em movimento, …, e aliás o movimento e o bater do coração são o seu único causador”. Harvey então descreveu o coração como uma bomba composta de músculos e que provia, pelos seus movimentos pulsáteis, o fluxo ininterrupto do sangue.

Certamente a sua teoria causou furor entre os pares, alguns a favor, outros contra, esses ainda ligados ao cordão umbilical de 15 séculos com o passado galênico. De qualquer forma, em 1673 o rei Luís XV promulgou um decreto dizendo que na França valia a teoria circulatória de Harvey e a partir daí o mundo se viu na rota certa de um pensamento que havia começado com Hipócrates três séculos antes de Cristo nascer.

E para o prezado leitor que aprecia o tema, deixo aqui um vídeo explanatório sobre o sistema circulatório humano, um dos mais fascinantes elementos da anatomia humana.

https://www.youtube.com/watch?v=u5Ujnzgy7fA

(Colaboração de Wagner Zapparoli, Doutor em Ciências pela USP, Professor Universitário e Consultor em Tecnologia da Informação)

Publicado na edição 11.024, sábado a quarta-feira, 8 a 11 de agosto de 2026 – Ano 102