Somos apenas parte da natureza

Wagner Zapparoli

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A Teoria da Seleção Natural e o livro “As Origens das Espécies”, ambas de autoria do evolucionista inglês Charles Darwin, nos aproximou muito mais do que imaginávamos enquanto espécie, dos grandes símios, como os chipanzés. Na época em que publicou os seus escritos, Charles Darwin foi extremamente combatido pelos grandes pensadores na Inglaterra, virando tema de chacota na mídia e piada na boca do povo. Ainda hoje há quem resista à idéia de nós e os chimpanzés termos o mesmo e único ancestral.

A evolução dos estudos genéticos, embora não tenha sanado todas as dúvidas da humanidade, trouxe relativa luz à questão da proximidade entre as espécies. É fato, por exemplo, que o material genético da espécie humana e dos macacos em unidade de DNA, demonstra que temos semelhança com eles em torno de 98,8%.

Por outro lado, e para alento de muitos, podemos afirmar que somos diferentes 1,2% deles, e parece ser esse minúsculo percentual o responsável em nos tornar não só diferentes, mas aparentemente mais evoluídos sob o ponto de vista cognitivo.

Mas, independentemente da evolução, o que de fato nos diferencia das demais espécies existentes na natureza, além da marcação genética e da morfologia?

 

Olhando por outros prismas

Francisco Salzano, professor titular da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, há tempos abriu discussão sobre quais seriam as características que definem as diferenças entre humanos e demais espécies. Sem dúvida a constituição biológica é uma delas, mas uma outra e talvez a mais importante de todas, refere-se à cultura que o homem cultivou desde os primórdios quando ainda frequentava as cavernas. Para melhor dirimir o conceito de cultura, Salzano a dividiu em três perspectivas: moralidade, religiosidade e linguagem.

Sobre a moralidade, Salzano afirma que, embora grandes primatas demonstrem comportamentos sociais complexos, eles não possuem sistema estruturado de valores morais ou julgamento ético. A moralidade, definida no sentido de cooperação intencional e desejo consciente de ajudar ou não ferir o próximo, definitivamente não encontra equivalente nos símios.

No contexto religioso observa-se que as estruturas de crença diferenciam os humanos dos símios pela capacidade exclusiva de conceber a transcendência e o sagrado. Enquanto os grandes macacos vivem limitados à realidade material e imediata, a mente humana possui o aparato cognitivo necessário para formular ideias de divindade, pós-morte e forças invisíveis que governam o universo.

Por fim, a linguagem diferencia os humanos de outras espécies quando analisada em sentido estrito. Enquanto animais e plantas utilizam a linguagem como comunicação rudimentar focada no controle motor e em sinais biológicos, apenas os seres humanos possuem a exclusividade de possuir sistema computacional cognitivo capaz de gerar sintaxe e recursão, permitindo criar variedade infinita de expressões e pensamentos a partir de conjunto limitado de elementos.

 

Sabendo usar as diferenças

De toda essa história sobre as diferenças entre espécies, seria normal concluirmos que a espécie humana parece ter evoluído mais rapidamente do que as demais, principalmente no que tange ao desenvolvimento de uma cultura, característica singular que os humanos possuem. Entretanto, nos considerarmos levianamente os mais inteligentes dos seres vivos nos faz adentrar em uma cegueira cognitiva, que, aliás, nos tem levado à destruição sistematizada da natureza, colocando em risco a sobrevivência das espécies.

Seria equívoco magistral acreditar nisso. Definitivamente não somos nem melhores e nem mais inteligentes. Precisamos assertivamente nos conscientizar de que somos apenas parte desse sistema finito, e se ganhamos de presente uma habilidade especial, devemos usá-la para melhorar o mundo em que vivemos, sem proselitismos ou retóricas.

E para você que chegou até aqui, querido leitor, deixo um brevíssimo vídeo sobre um mundo melhor.

https://www.youtube.com/watch?v=FShkXWLoHCU

(Colaboração de Wagner Zapparoli, Doutor em Ciências pela USP, Professor Universitário e Consultor em Tecnologia da Informação).

Publicado na edição 11.011, quarta, quinta e sexta-feira, 10, 11 e 12 de junho de 2026 – Ano 102