
Nos próximos cinco minutos que você vai usar para ler esse artigo, cerca de 50 crianças terão perdido a vida no mundo, muitas delas em contextos onde a fome e a desnutrição foram fatores decisivos. Ao longo de um ano, são quase 5 milhões de mortes de crianças menores de cinco anos, sendo que aproximadamente metade está associada, direta ou indiretamente, à desnutrição. Isso mesmo, milhões de vidas que se apagam antes mesmo de conhecer o que seria uma infância diante de uma mesa farta. Longe disso, devido à fome que atinge suas mães e seus contextos de vida, muitas crianças já nascem desnutridas, carregando deficiências fisiológicas que comprometem sua sobrevivência desde o início. Que me perdoem os leitores pelo sacrilégio, mas, em muitos casos, essas crianças já nascem prontas para morrer.
O paradoxo dessa história é que a quantidade de alimento produzida no mundo seria suficiente para alimentar cada cidadão vivo e talvez até sobrar. A realidade, porém, nos remete para o doloroso viés do estômago vazio.
Os miseráveis no mundo
Estudos na área de economia alimentar indicam que a fome não decorre, em sua essência, da falta de alimentos, mas da falta de condições para acessá-los. Em termos simples, o problema não está na produção, mas na renda. Milhões de famílias ao redor do mundo não têm recursos suficientes para garantir o mínimo necessário à sua sobrevivência.
Dados recentes da FAO apontam que em 2024 cerca de 670 milhões de pessoas enfrentaram a fome no mundo. Embora esse número represente leve melhora em relação aos anos mais críticos da pandemia, ele ainda permanece acima dos níveis anteriores a 2020. No mesmo período, aproximadamente 2,3 bilhões de pessoas, o equivalente a quase um terço da população global, viveram sob algum grau de insegurança alimentar.
A maior parte dessa população concentra-se em países mais pobres, sobretudo na África e na Ásia. Na África, a fome se intensifica em meio a uma combinação de fatores que se retroalimentam. Conflitos, crises econômicas, eventos climáticos extremos e doenças como o HIV/Aids fragilizam ainda mais populações já vulneráveis. Quando os provedores desaparecem, não apenas pela morte, mas pela incapacidade de trabalhar, o pouco que existia deixa de existir. E o que já era escasso se transforma em ausência quase absoluta, deixando milhões à espera de uma ajuda que nem sempre chega.
Cenário nacional
O Brasil já frequentou por muitos anos o Mapa da Fome elaborado pela ONU. Em 2022 e 2023, estimativas indicavam que cerca de 30 milhões de brasileiros enfrentavam insegurança alimentar grave, ou seja, conviviam diretamente com a fome. Nos anos mais recentes, esse número apresentou queda expressiva, situando-se em torno de pouco mais de 8 milhões de pessoas, segundo dados oficiais.
Entretanto, essa melhora não autoriza qualquer leitura otimista. Pelo contrário. Mais de 50 milhões de brasileiros ainda vivem sob insegurança alimentar leve ou moderada, o que significa lidar diariamente com a incerteza sobre o que e quanto se vai comer. Na prática, isso se traduz em refeições reduzidas, alimentação de baixa qualidade e uma rotina marcada por restrições silenciosas.
O país pode até ter se afastado, momentaneamente, das estatísticas mais extremas, mas permanece profundamente distante de realidade aceitável. A fome deixou de ser manchete constante, mas continua presente à mesa de milhões de brasileiros, revelando um cenário que, longe de resolvido, ainda expõe fragilidades estruturais e um sofrimento que persiste, muitas vezes invisível aos olhos de quem não o vive.
Saídas à vista?
Especialistas em economia alimentar arriscam sugerir algumas saídas para o problema da fome, senão em escala global, certamente em escala regional. Dizem eles que havendo governabilidade, aplicação efetiva da lei, transparência, ausência de corrupção, administração pública sólida e respeito e proteção aos direitos humanos, fatalmente haverá segurança alimentar sólida.
Neste contexto, caro leitor, eu arriscaria dizer que não só a fome viraria história, mas as mortes em filas de hospitais, a mendicância e a miséria exacerbadas, o analfabetismo explícito, o trabalho escravo e a própria degradação da natureza, entre outras mazelas que afligem o nosso povo, seriam apenas raras lembranças de tempos idos.
O difícil mesmo é convencer os nossos políticos patifes a seguirem essas singelas sugestões.
E para quem chegou até aqui, deixo um brevíssimo vídeo sobre o tema: https://www.youtube.com/watch?v=zmVFTNqoiwk. Sejamos e estejamos sempre inconformados!
(Colaboração de Wagner Zapparoli, Doutor em Ciências pela USP, Professor Universitário e Consultor em Tecnologia da Informação).
Publicado na edição 11.006, sábado a terça-feira, 16 a 19 de maio de 2026 – Ano 101



