Por um banho de sol

Wagner Zapparoli

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Lembro-me muito bem quando era adolescente de receber orientações do dentista sobre direcionar o rosto para o sol da manhã, abrir a boca e permanecer assim por alguns minutos sempre que possível.

Dizia ele que as pessoas ficam se assando ao sol e se esquecem que a língua, a gengiva e os dentes também precisam da incidência direta dos raios solares. Na verdade, o que o dentista estava sugerindo tem o nome de “helioterapia bucal”, ou seja, terapia da boca pela luz solar.

A helioterapia foi descoberta por volta de 1822 devido à ocorrência de epidemia de raquitismo (deformação dos ossos do corpo) na Europa. Entre os séculos 18 e 19 houve grande expansão da industrialização no velho continente, o que moveu boa parte da população rural para as cidades. A poluição, a falta de espaço e muitas vezes a vida reclusa privavam as crianças do contato com a luz solar. Fato posto, essas crianças começaram a apresentar sintomas da falta de resistência óssea, provocando o raquitismo.

Um atento médico polonês, estudando o assunto, observou que as crianças que permaneciam no campo não apresentavam tal distúrbio e refletindo a respeito chegou à conclusão de que simples banhos de sol diários resolviam o problema do raquitismo.

Análogo a tal situação, no século 20 os banhos de sol também eram o único tratamento eficaz para o combate da tuberculose e alguns outros distúrbios que acometiam uma população desassistida de medicamentos adequados, os quais viriam a ser criados a partir de meados do próprio século 20 com o avanço da pesquisa científica e tecnológica.

Entretanto, mesmo hoje com o desenvolvimento de medicamentos ultramodernos, estudos indicam que tomar banhos de sol ainda é um dos melhores meios de se evitar alguns distúrbios que podem provocar desde simples diabetes a vários tipos de câncer, entre eles, o câncer de mama.

 

A vitamina D e o sol

Durante vários anos de estudos para se descobrir o porquê dos benefícios do sol sobre as pessoas, desvendou-se um dos processos mais interessantes realizados pelo corpo humano, o qual se inicia na pele e avança corpo adentro passando pelo fígado e rins e atingindo toda a circulação sanguínea. Na base desse processo está a vitamina D.

Em termos resumidos, quando o sol (especificamente os raios ultravioletas e o calor) atinge a pele, é produzida a vitamina D (ou D3) que entra na circulação sanguínea e chega ao fígado, onde é transformada em substância derivada, chamada 25D. Essa derivada volta à corrente sanguínea e desta vez chega ao rim onde é novamente transformada biologicamente na substância 1,25D ativa, capaz de acionar ou desligar os genes em quase todos os tecidos do corpo humano. E é justamente esse poder de alterar a função celular que torna a vitamina D tão especial e importante para nós.

 

Os benefícios e os riscos

Desde a década de 80 que estudos intensivos vêm tentando entender as ações benéficas da vitamina D ao organismo humano. Inicialmente as pesquisas realizadas em camundongos com câncer de cabeça e de pescoço indicaram que a utilização de um composto sintético análogo à substância 1,25D evidenciaram a redução em 80% dos tumores. Resultados semelhantes foram obtidos em outros animais com câncer de mama e de próstata.

Em relação ao organismo humano, estudos indicam que a obtenção da vitamina D por banhos de sol (ou pela ingestão de certos alimentos) se traduz em vários benefícios à saúde. Entre outros, destaca-se a redução substancial na propensão de todos os tipos de câncer entre as mulheres, um menor desenvolvimento da esclerose múltipla, e uma menor propensão para a diabetes autoimune (tipo 1), principalmente em crianças durante o primeiro ano de vida.

Por outro lado, em pessoas com deficiência de vitamina D e seus derivados, as pesquisas indicam riscos maiores de desenvolver câncer de mama, próstata e cólon, além da maior probabilidade do câncer no ovário.

Portanto, hoje os especialistas não têm dúvida de que os banhos de sol diários, associados a uma prática esportiva e a uma alimentação equilibrada, são essenciais para a manutenção da boa saúde.

Mas, lembre-se, não vá virar um jacaré se torrando ao sol do meio-dia sem protetor solar. Tome o seu banho de sol tranquilamente, mas com muita parcimônia.

E para o prezado leitor que chegou até aqui, segue um brevíssimo vídeo sobre o tema. https://www.instagram.com/reels/DAWysg5P1__/

 

(Colaboração de Wagner Zapparoli, Doutor em Ciências pela USP, Professor Universitário e Consultor em Tecnologia da Informação)

Publicado na edição 11.016, quarta, quinta e sexta-feira, 1º, 2 e 3 de julho de 2026 – Ano 102