A era da agonia

Wagner Zaparoli

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Para quem hoje adentra a uma sala de cirurgia e observa os atuais e rigorosos protocolos de higiene dificilmente conseguiria imaginar como eram essas salas em meados do século XIX. Não só a imundície e as infecções surgiam como figurinhas carimbadas, mas a dor infligida aos pacientes se transformava em algo além dos limites humanamente suportados. Lembremo-nos de que a anestesia ainda não havia sido descoberta e o paciente, já apavorado por encarar uma morte quase certa, deveria aguentar a profunda e visceral dor de ser cortado a sangue frio.
Naquela época as cirurgias só eram realizadas em última instância, quando a morte era dada como certa e o método invasivo radical seria um ato de misericórdia na manutenção da vida. As salas de cirurgia eram dispostas como anfiteatros em forma circular, na qual subiam fileiras de cadeiras quase até o teto, normalmente construído com uma claraboia para iluminar minimamente a peça-chave da operação – o paciente.
Como as cirurgias eram raras, quando havia uma, a disputa pelas cadeiras era calorosa e normalmente quem ficava nas últimas fileiras acabava se amontoando como sardinha em lata, se acotovelando para conseguir um ângulo melhor. Às vezes a sala ficava tão lotada que o cirurgião sequer tinha espaço para realizar o procedimento, e nesse caso, precisava ser esvaziada parcialmente. No seu centro ficava uma mesa de madeira manchada pelo sangue batido dos procedimentos anteriores e abaixo dela ficava o piso recoberto por serragem para absorver o sangue que logo escorreria dos cortes efetuados. Seria de se imaginar que nesse ambiente a atmosfera não era das melhores. Abafada e mal cheirosa, a sala beirava o insuportável.

Um fim para a sensibilidade
Parte da mitigação do sacrifício que envolvia as cirurgias no século XIX começou a fazer história em 21 de dezembro de 1846. Na tarde daquele fatídico dia, o renomado cirurgião britânico Robert Liston divulgou que testaria a eficácia do éter para atenuar a sensibilidade dos pacientes. Certamente a plateia encarou o desafio com ampla desconfiança, pois para ela o anúncio não passava de mais um “truque ianque”, dado que o éter fora utilizado como anestésico geral pela primeira vez nos Estados Unidos.
Liston era um cirurgião de tamanho avantajado, cuja habilidade da força bruta associada à velocidade faziam dele um dos melhores especialistas para amputação de membros sob o ponto de vista da preservação do paciente. Histórias dão conta de que ele conseguia amputar uma perna em menos de trinta segundos. Em certa ocasião, ele trabalhava tão depressa que decepou três dedos de um assistente e cortou o casaco de um espectador. Tanto assistente quanto paciente morreram de gangrena tempos depois e o coitado do espectador faleceu ali mesmo de susto.
Voltando à tarde de 21 de dezembro, Liston – que também estava relativamente cético sobre os resultados dos efeitos do éter – no mínimo viu uma boa oportunidade para um espetáculo e decidiu utilizar o produto em um paciente chamado Frederick Churchill – um mordomo de 36 anos que sofria de uma infecção bacteriana nos ossos do joelho direito. Entre idas e vindas a hospitais, o joelho de Churchill chegou a uma situação em que a amputação era inevitável, e ali estava ele no centro do anfiteatro cirúrgico do University College Hospital de Londres aguardando o evento que mudaria para sempre o assombroso mundo dos pacientes dentro das salas de cirurgia.
Liston e seus assistentes utilizaram um aparelho semelhante a um narguilé árabe para introduzir o éter em Churchill e em poucos segundos ele já estava inconsciente e insensível à dor. Liston então, com sua famosa destreza, amputou a perna de Churchill em apenas 28 segundos.

Para cada vitória, um novo desafio
O sucesso da proeza de Liston reverberou efusivamente pela mídia londrina e pela comunidade médica. Palavras do People’s Journal na época: “… que deleite, para os corações sensíveis … o anúncio dessa nobre descoberta do poder de mitigar a sensação de dor e de vedar aos olhos e à memória todos os horrores de uma operação… Dominamos a Dor!”.
Sim, a dor nas salas de cirurgia havia sido literalmente dominada. Mas este era apenas um dos obstáculos ao sucesso das cirurgias a ser eliminado. Havia uma aguda consciência de que a incidência de infecções e choques pós-operatórios ainda acarretavam uma imensa perda de vidas. E esse seria, como mostrou a história da medicina ao longo dos séculos XIX e XX, um enorme desafio a ser batido, tanto pelas limitações tecnológicas da época quanto pelo ceticismo da comunidade científica.
Os estudos realizados por Louis Pasteur que fundamentaram a teoria microbiana das doenças serviram de guia para a guinada ao entendimento e à revolução da ciência quanto à assepsia dos ambientes hospitalares. Mas, foi através do árduo e longo trabalho de um médico cirurgião e pesquisador britânico que essa revolução se tornou realidade. Seu nome: Joseph Lister, o homem que ficou lembrado por transformar o aterrador mundo das cirurgias. Pacientes e médicos, nós, nos dias de hoje, devemos muito às suas realizações.

(Colaboração de Wagner Zaparoli, doutor em ciências pela USP, professor universitário e consultor em tecnologia da informação).

 

Publicado na edição nº 10490, de 3 a 5 de junho de 2020.