

Ao nos conectarmos às redes sociais, certamente chegarão a nós vídeos ensinando maneiras para lidar com a dor e o sofrimento. Normalmente, esses conteúdos começam dizendo algo como “assista esse vídeo até o final que ensinarei como sair da depressão” ou “cinco passos para eliminar sua ansiedade” ou “técnicas para sair da procrastinação para render melhor seu dia”; dentre outras chamadas para prender o ouvinte ao vídeo e conduzi-lo para um conteúdo que, sinceramente, beira ao charlatanismo.
Fato é que esses conteúdos existem porque atualmente ocorre procura incessante para excluir qualquer situação que cause desconforto em nós. É como se estivéssemos vivendo em busca da mesmice, ou seja, vivendo sempre e repetidamente o mesmo estado de espírito, a mesma emoção, as mesmas vivências e experiências. Buscamos isso, pois estamos habituados com nossa zona de conforto e, quando surge uma situação que serve como uma “ruptura”, uma “quebra” dessa suposta “paz”, nós estranhamos, não suportamos e, assim, procuramos desesperadamente voltar ao estado inicial em que estávamos. E tudo isso acontece sem nem refletirmos sobre o acontecimento que nos trouxe dor.
No livro Sociedade Paliativa, o filósofo sul-coreano Byung-Chul Han menciona que em todo lugar impera uma algofobia que seria uma angústia generalizada diante da dor. Ele diz que nossa tolerância à dor diminuiu e, por isso, toda condição dolorosa é evitada. Diante disso, queremos sempre viver na positividade, evitando qualquer negatividade em nossas vidas. Hoje, ouvimos muitos discursos sobre bem-estar, felicidade e otimismo, como se fosse possível viver somente assim.
A dor é sempre vista como sinal de fraqueza, assim precisamos eliminá-la a todo custo, não podendo externalizá-la para os demais ao nosso redor. Assim, vai se criando um caminho solitário e ainda mais doloroso quando não podemos expressar nossos sentimentos aos outros já que muitos buscarão nos impor que precisamos ser felizes a todo momento. Notem que não sou contra a felicidade, mas achar que a vida é feita apenas de bons momentos, de alegria e satisfação, é ilusão. Quanto mais eu busco essa felicidade ilusória, mais eu me submeto a medicações e técnicas para abafar o que sinto no momento, vivendo assim, uma vida com falta de sentido. Em curto prazo, essas técnicas e remédios funcionam, mas e em longo prazo? Quais são os efeitos?
Não estou querendo romantizar a dor, mas, sim, dizer que a dor e o sofrimento existem. Ficamos na ilusão ao pensarmos que é possível viver plenamente feliz sem passar por momentos difíceis. A vida é movimento, é encontro, é fluidez. Uma vida estática, sem rupturas e tensões, significa morte; é quando os nossos batimentos cardíacos param. O indivíduo precisa decidir se irá encarar e olhar para sua dor ou se ficará dando voltas e voltas, procurando estratégias para não olhar e, assim, cair numa eterna repetição de suas ações. Permanecendo no mesmo lugar, andando infinitamente em círculos, fechando, assim, as portas para inúmeras possibilidades de mudança e transformação que o enfrentamento dessa dor e sofrimento podem abrir.
(Colaboração de Pedro Henrique Fernandes Medeiros, Psicólogo Clínico CRP 06/217706, graduado pela PUC-Campinas. Atendimento Online, mestrando em Psicologia Social na Universidade Estadual do Rio de Janeiro; cursa especialização lato sensu em Psicologia Clínica na Perspectiva Fenomenológico-Existencial (Instituto de Fenomenologia-Existencial do Rio de Janeiro – IFEN, 2024–2026); especialista em Intervenção na Autolesão, Prevenção e Pósvenção do Suicídio – Instituto Vita Alere).
Publicado na edição 11.000, quarta, quinta e sexta-feira, 15, 16 e 17 de abril de 2026 – Ano 101




