A longevidade das próximas décadas exige nova visão sobre medicamentos

Luiz Assunção

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Dr. Luiz Antônio da Assunção, farmacêutico clínico, CRF 23.110 SP, Pós-graduado em acompanhamento farmacoterapêutico; e em gastroenterologia funcional e nutrigenômica. Foto: Divulgação

Durante décadas, um dos principais objetivos da medicina foi aumentar a expectativa de vida da população. E conseguimos.

Hoje vivemos mais do que qualquer geração anterior. Os avanços no diagnóstico, na prevenção e no tratamento das doenças crônicas permitiram que milhões de pessoas alcançassem idades antes consideradas excepcionais.

Mas um novo desafio começa a surgir.

Talvez a pergunta mais importante das próximas décadas não seja mais “Como fazer as pessoas viverem mais?” E talvez seja: “Como fazer as pessoas envelhecerem melhor?”

Essa mudança de perspectiva exige a nova forma de pensar os medicamentos ao longo da vida.

Os medicamentos foram fundamentais para a conquista da longevidade moderna. Porém, à medida que envelhecemos, torna-se cada vez mais importante avaliar não apenas seus benefícios, mas também os efeitos acumulados de anos ou décadas de tratamento.

Quando observamos um idoso utilizando muitos medicamentos, tendemos a enxergar apenas a situação atual. Mas a polifarmácia raramente surge de repente. Ela é construída ao longo do tempo. Cada novo diagnóstico, cada nova prescrição e cada revisão não realizada podem contribuir para tornar a farmacoterapia progressivamente mais complexa.

Por isso, acredito que a próxima fronteira da longevidade será a prevenção dos problemas relacionados aos medicamentos.

Isso significa investir em educação em saúde, estimular hábitos saudáveis, reconhecer precocemente efeitos adversos e revisar continuamente a necessidade de cada tratamento.

Também significa abandonar uma ideia que ainda persiste em nossa sociedade: a de que todo sintoma apresentado pelo idoso é consequência natural da idade. Fraqueza, tonturas, sonolência, perda de equilíbrio, quedas e alterações cognitivas nem sempre são apenas resultado do envelhecimento.

Em alguns casos, a farmacoterapia também merece ser investigada.

Nas próximas décadas, não bastará controlar doenças. Será necessário preservar funcionalidade, autonomia e qualidade de vida. Talvez a grande revolução da longevidade não esteja apenas em novos medicamentos.

Talvez esteja em aprender a utilizar melhor os medicamentos que já possuímos.

Porque viver mais continuará sendo uma conquista. Mas envelhecer com independência e dignidade será o verdadeiro indicador de sucesso.

 

(Colaboração de Luiz Assunção, Farmacêutico Clínic, autor de artigos e estudos sobre Polifarmácia e Longevidade).

Publicado na edição 11.010, quinta a terça-feira, 4 a 9 de junho de 2026 – Ano 102