A evolução da saúde em tempos de pandemia

Wilson Modesto Pollara

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A comemoração dos 60 anos do Hospital do Servidor Público Estadual de São Paulo (HSPE) ocorre num momento emblemático e inédito na história da medicina. Desde que a OMS (Organização Mundial da Saúde) declarou a pandemia do novo coronavírus – em 11 de março de 2020 – este tem sido um período repleto de adversidades, mas também que produzirá avanços administrativos e tecnológicos para todos os gestores da saúde.

Trata-se de uma epidemia silenciosa que exige um esforço multidisciplinar de proporções enormes para as equipes definirem as melhores estratégias terapêuticas. A OMS já estimou que 10% dos pacientes que contraem o novo coronavírus desenvolvem a síndrome pós-covid. Ou seja, mesmo após três meses da fase aguda da doença, esse grupo precisará de algum tratamento para lidar com efeitos da infecção.

Entre as síndromes clínicas reportadas está a de Guillain-Barré – uma doença autoimune grave em que o próprio sistema imunológico passa a atacar as células nervosas, levando à inflamação nos nervos e, consequentemente fraqueza e paralisia muscular. Também devemos ficar atentos sobre a covid-19 longa em pessoas que continuam com acometimento pulmonar, cardíaco, entre outros sintomas, mesmo após quatro a 12 semanas, sem outro diagnóstico que justifique. Como gestor hospitalar, reconheço que teremos o desafio de atender esses novos casos, além de manter a eficiência para promover saúde, prevenção, controle de doenças crônicas e reabilitação.

Mas, desde sua abertura, no aniversário da Revolução Constitucionalista de 9 de julho de 1961, o HSPE tornou-se referência em atenção básica na saúde e em tratamento de alta complexidade. Não será diferente neste período de crise sanitária. Nos próximos meses vamos implementar uma nova ferramenta imprescindível para aprimorar um sistema baseado na atenção primária aos pacientes. Utilizaremos um software que poderá ser acessado por um aplicativo para realizar um censo de saúde. O objetivo será entrevistar e coletar dados dos nossos 1,3 milhão de usuários para atender de forma equitativa e eficiente às necessidades de saúde dos servidores públicos estaduais e beneficiários. Com isso poderemos analisar fatores de risco e mapear as necessidades de tratamentos, intervenções e medicamentos por região.

O censo de saúde promovido pelo HSPE permitirá também traçar metas e práticas dos mais altos padrões de qualidade e previsão para o credenciamento de novos hospitais, clínicas, laboratórios e médicos. Essa ação já estava sendo planejada, mas a pandemia da Covid-19 acelerou sua implementação. A nova ferramenta fornecerá informações fundamentais para orientar seus profissionais de saúde nas mais de 50 especialidades. Assim vamos manter nossa essência de cuidar de pessoas, e antecipar tratamentos ao invés de apenas tratar doenças ou condições específicas.

Em momentos de crise também é preciso demonstrar agilidade. O HPSE foi pioneiro ao instalar o primeiro pronto atendimento exclusivo para pacientes com suspeita da covid-19 em São Paulo. O Gripário, como ficou conhecida a unidade, foi instalado no dia 18 de março de 2020, cinco dias depois de o governo do Estado de São Paulo anunciar a suspensão das aulas presenciais. Até o momento foram realizados mais de 40 mil atendimentos. Esse espaço ajudou a reduzir os riscos de contaminação entre pacientes que buscavam o hospital para emergências não relacionadas ao novo coronavírus.

Outro avanço provocado pela covid-19 que veio para ficar foi a Telemedicina. Boa parte do atendimento continuará a ser presencial, mas em consultas de retorno ou orientação, essa ferramenta se demonstrou amplamente eficaz. Ajudou ainda a evitar a exposição dos vulneráveis ao risco de contaminação ao Sars-CoV-2. Além de contribuir para estreitar o relacionamento entre médicos, pacientes, e agilizar o acesso entre ambos. O HSPE é uma das principais unidades no tratamento de pessoas acima de 60 anos na América Latina. Atende cerca de 10% da população idosa de todo o Estado. Às vésperas de completar seis décadas de existência, a unidade ganhou um Centro de Simulação Realística com equipamentos modernos para atendimentos clínicos e cirúrgicos e bonecos simuladores de alta-fidelidade, para oferecer cursos teórico-práticos em cenários que reproduzem o cotidiano do ambiente hospitalar.

Nos próximos 60 anos teremos uma medicina cada vez mais moderna, eficiente, integrada e formada por equipes multidisciplinares. O legado deste momento histórico trágico – em que ultrapassamos a triste marca de meio milhão de mortes pela Covid-19 – será o investimento global em saúde e ciência de qualidade. Tanto na área tecnológica como na de recursos humanos. E isso não inclui só os médicos, mas os técnicos, enfermeiros, nutricionistas, os fisioterapeutas, cientistas, e toda cadeia de profissionais que dá suporte para manter esse atendimento. O Hospital do Servidor Público Estadual continuará a produzir estudos científicos, colaborar com pesquisas e exercer a medicina com o que há de mais nobre na arte de promover saúde.

(Colaboração de Wilson Modesto Pollara, superintendente do Instituto de Assistência Médica ao Servidor Público Estadual – Iamspe).

Publicado na edição 10.596, de quarta, quinta e sexta-feira, 28, 29 e 30 de julho de 2021.