A geopolítica da vacina

José Mário Neves David

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Um dos eventos mais aguardados do ano de 2020, tão maltratado e imprevisível, é a liberação de uma – ou algumas – vacina(s) para imunização da população ao Covid-19, vírus da família dos Coronavírus responsável pela pandemia em curso.
Há vários estudos em desenvolvimento, financiados por bilhões de dólares públicos e privados e patrocinados por gigantes da indústria farmacêutica mundial, universidades de ponta de todo o planeta, governos nacionais e filantropos preocupados com a saúde da população ou interessados em dividendos de marketing para suas imagens pessoais.
As linhas de estudo são as mais variadas possíveis: algumas pesquisas se baseiam na utilização de anticorpos para combate ao vírus, outros estudos utilizam o vírus “adormecido” que, ao ser injetado no organismo humano, induziria a produção de mecanismos de defesa, dentre outras linhas de desenvolvimento. Há vacinas já em testes com voluntários humanos em larga escala, outras ainda se encontram em estágio laboratorial de análises e outras mal saíram das fases iniciais dos estudos. O que se sabe, contudo, é que provavelmente haverá espaço para muitas vacinas diferentes, algumas possivelmente complementares, dada a necessidade de imunização de parcela substancial da população humana mundial, hoje projetada em aproximadamente 7,8 bilhões de pessoas, e a incapacidade dos laboratórios em produzir tamanha quantidade de doses em curto ou médio prazos.
Inobstante haja uma sincera busca pela imunização definitiva da população ao Covid-19 e variados interesses comerciais e financeiros na produção das vacinas, o que se observa nesta “corrida contra o tempo” para produção das substâncias que possam proteger as pessoas do vírus é um pano de fundo envolvendo grandes potências mundiais, as quais, inclusive, sofrem na pele os efeitos da pandemia, tais como o Reino Unido, que após meses de quarentena, estuda novo lockdown para impedir o avanço de uma segunda onda de contaminação da população.
A descoberta, produção, comercialização e distribuição das doses de uma vacina segura e eficaz representa, para alguns países, uma possibilidade de influência geopolítica, o ingresso de recursos em suas economias locais e a “vitória” sobre as demais nações, seja pela contemporaneidade da droga imunizante, seja pela tomada de mercados estratégicos.
A Rússia, uma potência militar mundial e uma das vinte maiores economias do globo, anunciou recentemente a produção de uma vacina denominada “Sputnik V”, a qual, em tese, seria eficaz contra a Covid-19. Muito embora tal divulgação tenha causado surpresa e ceticismo na comunidade científica e política mundial, tendo em vista a ausência de estudos sérios que comprovem a segurança e efetividade da droga russa, é inegável que essa notícia gera dividendos ao país da Eurásia, que se coloca como player relevante da trilionária indústria farmacêutica, colhe louros por produzir uma vacina antes de seus grandes concorrentes no tabuleiro da geopolítica global e adianta vendas de doses aos países que ignoram a ausência das comprovações científicas acerca da viabilidade da vacina.
Manifestações recentes de CEOs de grandes farmacêuticas e presidentes de potências mundiais, tais como os Estados Unidos, indicam que ainda em 2020 haverá a produção e comercialização de doses de vacinas em estágio avançado de estudo e pesquisa. Quem efetivamente apresentar uma droga segura e exitosa contra a Covid-19 primeiramente aos concorrentes mundiais, “limpa a mesa” e leva parcela relevante dos recursos das nações em desenvolvimento e menos desenvolvidas e que anseiam por uma solução rápida e eficiente contra o vírus que paralisa suas economias, causa mortes e sofrimento às suas populações e, claro, prejudica politicamente os governantes em comando. No Brasil, inclusive, políticos de todos os matizes têm prometido a vacinação em massa da população nos próximos meses. A ver.
Neste contexto, é importante destacar que, por trás da preocupação mundial com a disseminação do vírus e com a busca por uma vacina que resolva o problema da pandemia, há também inúmeros interesses comerciais, científicos, militares e geopolíticos, que envolvem a manutenção ou troca de cadeiras no tabuleiro de xadrez envolvendo as grandes potências mundiais. As vacinas, quando disponibilizadas, serão também um instrumento de dominação e força.

 

(Colaboração de José Mário Neves David, advogado e administrador de empresas. Contato: jd@josedavid.net).

 

Publicado na edição nº 10521, de 26 a 29 de setembro de 2020.