Você se relaciona ao modo do Tênis ou do Frescobol?

Pedro Medeiros

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Articulista – Pedro Medeiros, bebedourense, psicólogo clínico e novo articulista da Gazeta, passa a contribuir com reflexões sobre saúde mental, comportamento e existência a partir da psicologia fenomenológico-existencial.Foto: Arquivo pessoal.

Em uma de suas crônicas mais brilhantes, o escritor Rubem Alves fez uma comparação interessante sobre o casamento. Para ele, existem relacionamentos do tipo ‘tênis’, em que predominam sentimentos de raiva e ressentimento, terminando sempre mal; e do tipo ‘frescobol’, que são uma fonte de alegria e têm mais chances de vida longa. O tênis é um jogo feroz cujo objetivo é derrotar o adversário. Joga-se para fazer o outro errar, buscando o ponto fraco para dar a ‘cortada’ e vencer, o que resulta na alegria de um e na tristeza do outro.

Já o frescobol é diferente. São dois jogadores, duas raquetes e uma bola, mas onde o objetivo é manter a bola no ar. Se a bola vem torta, faz-se o maior esforço para devolvê-la bem. Aqui, para o jogo ser bom é preciso que nenhum dos dois perca. A bola são os nossos sonhos, fragilidades e conversas, assim tornar-se gostoso aquele ir e vir, ir e vir, ir e vir… No frescobol, o erro do outro não é uma vitória minha, mas um acidente a ser superado, juntos, para que o jogo continue.

Rubem Alves usou essa metáfora para falar de casamentos, mas convido o leitor a ampliá-la para todas as nossas conexões: amizades, laços familiares e convivência social. Na contemporaneidade, somos induzidos por uma máxima de produtividade e ascensão individual que nos exige ser os melhores a qualquer custo. Fomos ensinados a buscar ter razão, a defender nossas vontades de forma inflexível e a enxergar o outro sempre como adversário no jogo da vida. Esquecemo-nos de jogar frescobol para jogar apenas o tênis.

Nesse jogo individualista, perdemo-nos de nós mesmos e da riqueza do encontro real. Tornamo-nos intolerantes à diferença. Quando o outro não pensa como nós, quando hesita ou falha, aplicamos a “cortada”, ou seja, o julgamento, o afastamento, o “apontar o dedo” e o cancelamento. O resultado? Uma epidemia silenciosa de solidão. Quem ganha o jogo do tênis nas relações humanas, no fundo, sempre perde, pois acaba jogando sozinho.

Não se trata de romantizar a convivência e mantê-la a qualquer custo, mas de resgatar o valor da presença. Aquele tipo de presença tranquilizante em que, no fim de um dia exaustivo, sabemos que existe alguém disposto a estar ali, no simples espaço do encontro. Estar ali não significa resolver os problemas do outro como num passe de mágica, mas acolher a sua realidade e sustentar o diálogo. Seria o estar ali com um simples abraço, sorriso ou de mãos dadas em um gesto de aconchego. É nesse espaço de cumplicidade que as pressões do mundo esvanecem, nem que seja por alguns instantes tornando a vida digna de ser vivida.

Fica, então, o convite à reflexão: no seu dia a dia, você tem jogado tênis ou frescobol? Tem buscado derrotar o outro ou sustentar o jogo das nossas fragilidades e sonhos? Afinal, para que a vida exista e tenha graça, a bola precisa continuar no ar!

(Colaboração de Pedro Henrique Fernandes Medeiros, Psicólogo Clínico pela PUC-Campinas, mestrando em Psicologia Social na Universidade Estadual do RJ; cursa especialização lato sensu em Psicologia Clínica, no Instituto de Fenomenologia-Existencial do RJ, especialista em Intervenção na Autolesão, Prevenção e Pósvenção do Suicídio pelo Instituto Vita Alere).

Publicado na edição 11.034, sábado a terça-feira, 19 a 22 de setembro de 2026 – Ano 102