A hiperinflação do indivíduo

José Renato Nalini

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O livro que a Covid19 suscitou na consciência sensível e generosa do Papa Francisco é algo que toda pessoa lúcida deveria ler. Independente de sua religião. Não é obra para católicos. É texto para humanos.

A expressão que deu o título a esta reflexão está na primeira parte do livro. Textualmente, o Papa diz:”A hiperinflação do indivíduo anda de mãos dadas com a fraqueza do Estado”. Nada mais atual do que o Brasil vivencia nestes tristes dias.

A despeito de uma crise planetária, a União persevera num trato inconsequente da peste. Inimaginável o que se declara, o que acontece no Amazonas, o festival de insensatez que polui a vida pública tupiniquim.

O Papa prossegue: “Uma vez que o povo perde o sentido do bem comum, a história mostra que caímos na anarquia ou no autoritarismo, ou em ambas as coisas: nos tornamos uma sociedade violenta e instável”.

A violência é estimulada com essa volúpia pelo armamento. Sessenta nascituros padecem por falta de oxigênio em Manaus, enquanto a aquisição de instrumentos letais se intensifica. Seguimos o mau exemplo da grande ex-hegemonia ianque. Francisco observou: “Já estamos nesse ponto: basta ver o número de pessoas que morrem a cada ano devido à violência armada no continente americano. Desde o início da crise nos Estados Unidos, as vendas de armas bateram todos os recordes”.

Ao se afastar da tradição multilateral da diplomacia pátria, o Brasil voltou ao superado lema do “fazer tudo o que o mestre mandar” e embarcou nas teorias conspiratórias, no negacionismo, na desinformação, no deboche vulgar e faz a pregação de que andar armado protege o cidadão dos maus elementos.

Dividir a população entre “nós”, os puros e “eles”, os perversos, é outra tática geradora de divisões. A opção ideológica separa pais e filhos, maridos e mulheres, irmãos e primos.

Enquanto a tradição brasílica era considerar a Pátria uma família amplificada, semear cizânia atinge o cerne dessa instituição. “Sem o “nós” de um povo, de uma família, de instituições, de uma sociedade que transcende o “eu” dos interesses individuais, a vida rapidamente se quebra e se torna violenta: surge uma batalha pela supremacia entre facções e interesses. E se o Estado já não é capaz de controlar a violência em favor da paz social, pode acabar fomentando essa violência para defender os próprios interesses”.

Tudo isso é muito mais grave do que a Covid, pois contamina o convívio, desalenta as criaturas, faz com que elas fiquem desarvoradas, sem perspectivas de um futuro melhor.
Mas o Papa é o homem da esperança. Humilde, narra as suas experiências de fragilidades, que ele compara à pandemia. Ele enxerga luz ao final, assim como Zygmunt Bauman o considerava, no único encontro que eles tiveram, pouco antes da morte do sociólogo polonês, outro exemplo de resiliência e de crença na humanidade.

Ele enxerga o momento atual como “a hora da verdade”. “É um momento em que tanto os nossos parâmetros como as nossas formas de pensar são sacudidos e as nossas prioridades e os nossos estilos de vida são postos em questão. Cruzamos um limiar, seja por decisão própria, seja por necessidade, porque há crises, como a que estamos atravessando, que não podemos evitar”.

O coronavírus escancarou nossa fragilidade. Nosso despreparo. A insuficiência de nossas vãs pretensões. Já morreram mais de dois milhões de seres humanos, vitimados pela praga. Por isso a objetividade do Papa Francisco, a reconhecer que “estamos vivendo um momento de provação. ..Nas provações da vida, você acaba revelando o seu próprio coração: a sua solidez, a sua misericórdia, a sua grandeza ou a sua mesquinhez. Os tempos normais são como as situações sociais formais: a pessoa nunca mostra o que é de verdade. Sorri, diz o correto e sai da situação, sem mostrar quem é na realidade. Mas, quando passa por uma crise, acontece o oposto: você se coloca diante da necessidade de escolher. E, ao fazer sua opção, seu coração é revelado”.

O presente nos oferece a oportunidade de mostrar quem efetivamente somos. Como reagimos a essa possibilidade de sair de uma existência que pode ter parecido infinita e mergulhar no mistério da morte. E se isso não for uma experiência pessoal, como nos portaremos quando e se um dia a praga vier a ser debelada. Renderemos graças por continuarmos vivos? Saberemos cultuar os nossos mortos, dos quais sequer tivemos oportunidade de nos despedir? Seremos mais benevolentes, mais pacientes, mais sensíveis às necessidades do próximo?

O texto de “Vamos sonhar juntos – o caminho para um futuro melhor”, nos fará pensar em como responder a essas e a tantas outras indagações. Leitura obrigatória para todos.

(Colaboração de José Renato Nalini é Reitor da Uniregistral, docente da Pós-graduação da Uninove e Presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022).

Publicado na edição 10.567 de 2 a 6 de abril de 2021.