

Há poucas décadas, o avanço tecnológico que vivemos hoje seria considerado ficção científica. Em 2026, a tecnologia nos permite encurtar distâncias em chamadas de vídeo, acessar o conhecimento global em segundos e resolver burocracias bancárias ou compras de mercado sem sair do sofá. Com a ascensão da Inteligência Artificial (I.A.), a vida tornou-se “otimizada”: nossas dúvidas são respondidas prontamente e o desconforto da espera parece ter sido banido da nossa rotina.
À primeira vista, não haveria do que reclamar. A tecnologia trabalha para que tenhamos o máximo de conforto e o mínimo de cansaço. No entanto, essa busca incessante pela praticidade está cobrando um preço invisível, mas profundamente sentido na clínica psicológica: o fim dos nossos vínculos reais.
Sem perceber, estamos trocando a vida vivida pela vida mediada por telas. Na ânsia de resolver tudo com um “clique”, estamos fragmentando nossa experiência no mundo. Gostaria de propor um exercício didático aos leitores: imagine a sua primeira hora do dia. Em um cenário, você levanta, vai à padaria, cumprimenta o atendente, troca palavras com um conhecido na fila e sente o sol da manhã no rosto. Houve ali uma série de conexões reais e trocas de afetos que humanizam o seu dia. No segundo cenário, você acorda e pede o pão por um aplicativo enquanto consome vídeos curtos e mensagens automáticas de uma I.A. no celular.
Ao final dessa hora, no segundo cenário, você saberá dizer o que realmente consumiu? Lembrará dos rostos, dos cheiros ou das sensações? Provavelmente, não. O vínculo virtual é “pronto” e não exige esforço, mas ele é desprovido de corpo, de cheiro e de toque. Ele nos entrega a informação, mas não nos entrega a presença.
Na clínica e em supervisões, o que vejo é o crescimento de uma solidão profunda mascarada por uma falsa sensação de “hiperconectividade”. Estamos cada vez menos dispostos ao “trabalho” que um vínculo real exige: a disponibilidade para o outro, a aceitação das diferenças e a escuta da história completa de quem está à nossa frente. Substituímos toda essa conexão para ver o outro somente por meio de uma foto ou vídeo nas redes sociais, circunstâncias essas que dizem pouco sobre o outro, afinal, quem nunca postou uma foto feliz quando na verdade estava se sentindo triste, só para ganhar uma curtida?
A vida é feita de encontros, movimentos e, por vezes, do desconforto que o contato humano gera. É nesse “atrito” com o outro que crescemos e nos transformamos. A tecnologia pode otimizar nosso tempo, mas jamais substituirá o afeto de um abraço apertado ou o brilho no olho de alguém que diz: “que bom te encontrar”. A I.A. pode nos dar todas as respostas, mas o sentido da vida, aquele que nos livra da solidão, só é encontrado no mundo real, onde o corpo está presente e a conexão é genuína.
(Colaboração de Pedro Henrique Fernandes Medeiros, Psicólogo Clínico CRP 06/217706, graduado pela PUC-Campinas. Atendimento Online, mestrando em Psicologia Social na Universidade Estadual do Rio de Janeiro; cursa especialização lato sensu em Psicologia Clínica na Perspectiva Fenomenológico-Existencial (Instituto de Fenomenologia-Existencial do Rio de Janeiro – IFEN, 2024–2026); especialista em Intervenção na Autolesão, Prevenção e Pósvenção do Suicídio – Instituto Vita Alere).
Publicado na edição 11.003, sexta a sexta-feira, 1º a 8 de maio de 2026 – Ano 101




