
Será que a escravidão no Brasil terminou mesmo em 13 de maio de 1888? Não foram muitas as vozes contra essa mácula, destacando-se as de Joaquim Nabuco e André Rebouças. O primeiro, grande orador, animador das massas. O segundo, trabalhador persistente e aguerrido. Dedicou-se, com toda a força e entusiasmo, a redimir o elemento servil.
Sem fazer concessões, Rebouças foi implacável no seu rosário de recriminações e objurgatórias, cujo alvo era o conjunto dos moderados, reservados em concepções de ordem econômica, de defesa do parque agropecuário, temerosos por um possível caos financeiro, de consequências funestas ao Império. Assim, não hesitou em falar em “gangrena nacional, causa primária de todas as misérias, obstáculo máximo à imigração, crime onímodo, vergonha que aflige o império, exploração secular da raça africana”.
A divergência prática remanescente era a questão da indenização. Contra ela André Rebouças dirigirá toda a truculência de sua pena. O primeiro argumento era o valor do escravo, de conteúdo irrespondível: os negros importados antes de 1831 teriam custado tanto quanto uma pipa de aguardente ou alguns rolos de fumo. Já os posteriores àquele ano eram perfeitamente livres pelas leis, pelos decretos e pelos regulamentos vigentes. Ainda mais, o Brasil a tal se comprometera em acordos solenes com a Inglaterra.
Mas a cupidez dos donos de escravos insistia na tecla. Alguns queriam desproporcional compensação a ser paga pelo Fundo de Emancipação. Já os abolicionistas negavam absolutamente o direito à indenização.
E isso porque a exploração de humanos por humanos é torpe. Uma indústria cínica e imoral. Abolição imediata, instantânea e sem indenização alguma, era o que se exigia. E foi o que ocorreu, mas depois de muitas lutas.
Mas não existe hoje qualquer resquício da condição de escravo? O que dizer dos favelados, dos excluídos, dos moradores de rua, dos invisíveis, daqueles que não têm por si o mínimo existencial? Será que os brasileiros não têm de acertar contas com a sua realidade e de cumprir o que a Constituição consagra: a plenitude absoluta dos direitos humanos para todos os humanos?
A escola que queremos
Quando, em 2016, renunciei a mais cinco anos na minha adorada Magistratura, para atender à convocação do Governador Geraldo Alckmin e assumir a Secretaria da Educação do Estado, sabia que a empreitada não seria fácil. Mas nunca fugi de desafios.
Procurei serenar os ânimos, retomar as escolas que estavam invadidas – não por alunos, mas por indivíduos que se valeram da crise para intensificar antagonismos ideológicos – e consultei os doutos.
Pensei em solicitar a cada estudioso de educação – e há muitos no Brasil – escrevessem pequeno texto sobre “A escola que queremos”.
Obtive muitas respostas. O resultado inclusive se converteu numa obra editada pela saudosa hoje inoperante IMESP – Imprensa Oficial do Estado de São Paulo.
Mas revendo meus arquivos e tentando me desapegar de tanto acúmulo de papeis, encontro um texto que merece menção. Foi elaborado por aluno da Escola Estadual “Professora Ismênia Monteiro de Oliveira”, de Pindamonhangaba, exatamente o berço natal do hoje Vice-Presidente Geraldo Alckmin.
O aluno não se identificou. Mas me entregou, quando da visita à escola, o texto que ora reproduzo:
“A escola que queremos. Na escola que queremos tem sala de aula arejada, limpa e organizada. Tem professor capacitado, com vontade de aprender, para ser um educador qualificado. Não tem desigualdade, todo mundo se ajuda e aceita a novidade. Temos amor e atenção, alunos aprendendo com mais dedicação. Na escola que queremos, sala de leitura é opção, alunos aprendendo com determinação. O corpo docente trabalha como orquestra em execução, fazendo tudo com harmonia e união. Todos têm compromisso e participação. Formamos cidadãos para o futuro, sem ficar em cima do muro. Aula não se gazeia, é o segundo lar que o futuro norteia. Há cidadãos conscientes, capazes e preparados. Há alunos solidários, autônomos e competentes. Essa é a escola que queremos. Essa é a minha escola “Professora Ismênia Monteiro de Oliveira”.
Um bom roteiro para qualquer escola, seja pública ou privada. Em busca da “escola que queremos”, ainda continuamos todos. E disso depende o futuro do Brasil. Não podemos desistir.
(Colaboração de José Renato Nalini, reitor da Uniregistral, docente da Pós-graduação da Uninove e Secretário Executivo das Mudanças Climáticas de São Paulo).
Publicado na edição 11.003, sexta a sexta-feira, 1º a 8 de maio de 2026 – Ano 101





