Adoecimento no trabalho, o que está acontecendo conosco?

Pedro Henrique Fernandes Medeiros

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Articulista – Pedro Medeiros, bebedourense, psicólogo clínico e novo articulista da Gazeta, passa a contribuir com reflexões sobre saúde mental, comportamento e existência a partir da psicologia fenomenológico-existencial.Foto: Arquivo pessoal.

Em 2025, segundo o Ministério da Previdência, o Brasil atingiu marca significativa que dialoga diretamente com o que percebemos na clínica psicológica: mais de 546 mil pessoas foram afastadas do trabalho por questões de saúde mental, aumento de 15% em apenas um ano. Esses números não são meras estatísticas; eles escancaram o sofrimento existencial dos trabalhadores brasileiros e exigem momento de desaceleração para refletirmos sobre o que esses dados realmente significam. No topo dessa lista de afastamentos estão a ansiedade e a depressão. Mas o que, afinal, está acontecendo conosco?

 

Apontar culpados é o caminho mais fácil, porém seria uma forma reducionista de tratar problemática tão complexa. Uma das formas de compreendermos esse cenário é olhar para o que o filósofo francês Gilles Lipovetsky chama de “hipermodernidade”. Vivemos a era da aceleração absoluta, na qual o desejo precisa ser satisfeito imediatamente e o objeto recém-comprado logo perde seu valor. O tempo das tecnologias digitais eliminou a espera, gerando a expectativa de respostas instantâneas para todas as demandas da vida. Ademais, vivemos a hipervalorização da liberdade individual levada ao extremo: o “eu” torna-se soberano e superior ao coletivo. Somos intimados a ser livres, mas essa liberdade está acorrentada ao ato de consumir, acumular e usufruir de prazeres imediatos.

 

Nessa busca, o mundo do trabalho deixa de ser lugar de realização para se tornar engrenagem de pressão constante. Viramos “máquinas de performance”. Deixamos que o modo automático assuma o controle e passamos a repetir tarefas para produzir cada vez mais, alimentando um anseio por consumo que promete felicidade, mas entrega vazio. As relações humanas, antes sólidas, tornam-se utilitárias; o outro vira concorrente, um estranho com quem não buscamos vínculo, ou apenas alguém útil para resolver problema pontual para, em seguida, ser descartado.

 

Nesse “clima de pressão”, para conquistar algo que nem sabemos ao certo o que seja, a vida perde o sentido. Fazemos por fazer. Trabalhamos para ter, sem saber para quê. Na busca incessante pelo possuir, não paramos para saborear a conquista; em instantes, já estamos estipulando nova meta. É nesse hiato entre o que somos e o que o mundo nos exige que se abre margem para o sofrimento existencial, especialmente quando nos damos conta do vazio de nossas ações.

 

Longe de esgotar o tema, o adoecimento atual parece surgir de uma liberdade que virou prisão. Na ânsia desenfreada de conquistar, somos atropelados pela ansiedade; no desespero de não atingir o inalcançável, mergulhamos na depressão. O recorde de afastamentos é, no fundo, o sintoma de uma humanidade que esqueceu como parar, sentir, pensar e, verdadeiramente, viver.

 

(Colaboração de Pedro Henrique Fernandes Medeiros, Psicólogo Clínico CRP 06/217706, graduado pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUC-Campinas). Atendimento Online, mestrando em Psicologia Social na Universidade Estadual do Rio de Janeiro; cursa especialização lato sensu em Psicologia Clínica na Perspectiva Fenomenológico-Existencial (Instituto de Fenomenologia-Existencial do Rio de Janeiro – IFEN, 2024–2026); especialista em Intervenção na Autolesão, Prevenção e Pósvenção do Suicídio – Instituto Vita Alere).

Publicado na edição 10.998 quinta a sexta-feira, 2 a 10 de abril de 2026 – Ano 101