Agronegócio e sazonalidade

José Mário Neves David

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O PIB (Produto Interno Bruto) do agronegócio brasileiro apresentou queda de 4,22%, em 2022. Os dados decorrem de estudo do Cepea (Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada), da USP (Universidade de São Paulo), realizado em parceria com a CNA (Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil).

A queda, observada após as expressivas altas em 2020 (24,31%) e 2021 (8,36%) no setor, deu-se em função da substancial elevação dos custos de produção “dentro da porteira”, isto é, na etapa de produção. Considerando os preços médios de fertilizantes, defensivos, combustíveis, sementes e outros insumos de produção, houve, em 2022, um aumento de custos básicos ao produtor da ordem de 37%, em média. Com uma maior necessidade de investimento na produção, as margens foram corroídas, gerando efeitos no lucro apurado pelo produtor agropecuário e na geração de riquezas para o setor e o País.

Apesar da queda expressiva do PIB agropecuário em 2022, as estimativas e estudos iniciais apontam para o retorno do crescimento do setor já em 2023. O Ipea (Instituto de Pesquisas Aplicadas), fundação pública vinculada ao Ministério do Planejamento e Orçamento, projeta um crescimento do PIB no campo de 11,6% no corrente ano. Já o Itaú BBA, braço financeiro de investimentos do maior conglomerado bancário do Brasil, estima um crescimento do agronegócio nacional de 10% em 2023, ligeiramente abaixo das projeções do governo federal.

Essa sazonalidade de dados do setor – crescimento elevado em alguns anos, queda relevante em outros – decorre de fatores diversos. Como mencionado, o aumento dos custos de insumos no ano passado afetou diretamente os resultados do setor agropecuário e, de maneira direta, provocou redução no crescimento do PIB desse estrato da economia. No ano de 2023, as estimativas de crescimento substancial da geração de riquezas no campo decorrem, principalmente, da elevada expectativa de aumento na produção de determinadas culturas, tais como milho e soja. Cana-de-açúcar, fumo e algodão devem, também, performar bem em 2023, ao passo que o trigo e o arroz, fortemente impactados pela estiagem observada no Rio Grande do Sul, devem ter maior dificuldade na produção e, consequentemente, apresentar números negativos na geração de riquezas ao Brasil.

Nesse sentido, observa-se que variados fatores contribuem para o crescimento ou a retração do PIB do agronegócio, sendo parcela deles, desvinculados da ação humana. Guerras, ruídos políticos e alterações repentinas de regras, assim como a pesquisa e desenvolvimento de melhorias vegetais e animais, afetam diretamente o setor e decorrem de decisões de governantes e da ação do homem. Porém, outros fatores, como intempéries climáticas, oscilações de moeda e surgimento de novas pragas também afetam o setor, estando dissociados da ação ou omissão humana.

Um ponto importante a ser destacado diz respeito às bases de comparação estatísticas. A queda do PIB agropecuário em 2022 tem em seu cerne uma motivação de custos, conforme visto acima. Porém, o forte crescimento do setor observado nos anos anteriores contribuiu, comparativamente falando, para os números negativos apresentados pelo Cepea e a CNA. Por sua vez, apesar dos indicativos de crescimento robusto da atividade em 2023, é fato que a base de comparação negativa em 2022 favorece o crescimento na observação ano a ano do setor, projetado na casa dos 10%.

O que se observa com certa clareza é que os números do agronegócio são superlativos. Apesar de todas as dificuldades e do ambiente externo, que favorece ou dificulta a vida do produtor rural, o agronegócio representa, ainda, em média, aproximadamente 1/4 da economia nacional – 24,8% em 2022, para ser mais exato, conforme dados do Cepea. As oscilações entre crescimento e retração econômica são comuns no setor, porém a importância desse segmento para a economia nacional e a geração de riquezas para o Brasil é, ano após ano, uma realidade indefectível.

(Colaboração de José Mário Neves David, advogado e consultor. Contato: [email protected]).

Publicado na edição nº 10.746, sábado a quinta-feira, 1º a 6 de abril de 2023