Apostas (bets) proibidas, e agora? O que fazer?

Pedro Medeiros

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Articulista – Pedro Medeiros, bebedourense, psicólogo clínico e novo articulista da Gazeta, passa a contribuir com reflexões sobre saúde mental, comportamento e existência a partir da psicologia fenomenológico-existencial.Foto: Arquivo pessoal.

Nas últimas horas, o debate sobre a proibição das casas de apostas virtuais (bets) ganhou espaço no país com a discussão de novas medidas de regulação até que o presidente Lula assinou a Medida Provisória proibindo a prática. O debate está longe de ser finalizado devido a amplas discussões de diversos setores e segmentos envolvidos com o lucro advindo de tal prática. O hábito de apostar deixou de ser um caso isolado para se tornar um problema econômico, social, emocional e de saúde pública.

Segundo levantamento da Confederação Nacional dos Dirigentes Lojistas (CNDL) e do Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil), o país soma 50 milhões de apostadores. Em 2025, R$ 62,5 bilhões saíram do orçamento das famílias para as plataformas, recursos esses, que deixaram de ser destinados ao consumo básico, à poupança e ao comércio local. Os números mostram o tamanho do endividamento: 25% dos apostadores já deixaram de pagar alguma conta para jogar, e 43% abriram mão de itens essenciais, como alimentação, luz e água, para destinar dinheiro aos sites.

Na clínica psicológica, o que se observa por trás dessas estatísticas é o sofrimento gerado pela perda do controle. O problema com apostas traz sentimentos frequentes de culpa e vergonha, além do isolamento social e do desgaste das relações familiares, alimentando quadros de ansiedade e depressão.

A situação exige atenção também na infância e na adolescência. Dados da Frente Parlamentar Mista da Educação mostram que 27,3% dos estudantes do ensino médio no Brasil já apostaram, mesmo sendo proibido para menores de 18 anos. O contato com o jogo começa cedo: 9,5% das crianças de 11 anos relatam já ter feito apostas. Entre os meninos do terceiro ano do ensino médio, quase metade já aposta, muitas vezes tratando a prática como uma distração inofensiva no celular.

Diante desses dados, com as bets proibidas ou não, é necessário abordar esse tema em casa através de uma conversa direta com filhos, sem pânico ou tom alarmista. Algumas atitudes práticas ajudam na orientação:

  • Comece pela conscientização: Compartilhe relatos reais de pessoas que tiveram problemas com apostas. Exemplos práticos educam melhor que proibições abstratas.
  • Mantenha a seriedade: Não trate o assunto como piada ou mera fase. Dê ao tema o peso real que ele tem para a saúde mental.
  • Busque o equilíbrio na fala: Evite o tom extremamente alarmista. O pânico pode gerar curiosidade para testar os limites ou medo de pedir ajuda caso o jovem já esteja envolvido.
  • Seja o exemplo: Observe a cultura da família. Quando os adultos naturalizam raspadinhas, loterias, bets ou apostas no cotidiano, a criança e adolescente entende que o jogo é inofensivo.
  • Educação financeira: Converse abertamente sobre de onde vem o dinheiro, o esforço para conquistá-lo e o valor da construção em longo prazo, em oposto ao ganho fácil.

O envolvimento com jogos de azar é uma condição que exige cuidado. Se você ou alguém próximo enfrenta dificuldades para interromper esse hábito, busque orientação. O apoio pode ser encontrado no Centro de Saúde mais próximo, no Centro de Atenção Psicossocial (CAPS), em grupos de apoio como os Jogadores Anônimos ou com um profissional de saúde mental.

(Colaboração de Pedro Henrique Fernandes Medeiros, Psicólogo Clínico pela PUC-Campinas, mestrando em Psicologia Social na Universidade Estadual do RJ; cursa especialização lato sensu em Psicologia Clínica, no Instituto de Fenomenologia-Existencial do RJ, especialista em Intervenção na Autolesão, Prevenção e Pósvenção do Suicídio pelo Instituto Vita Alere).

Publicado na edição 11.038, sexta a terça-feira, 2 a 6 de outubro de 2026