As abelhas e o Alzheimer

José Renato Nalini

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O mal de Alzheimer está proliferando e acometendo milhões de humanos. Ainda incurável, é objeto de pesquisas em todos os laboratórios e Universidades do planeta.

Uma boa notícia provém da maior e melhor Universidade brasileira, a nossa USP. Testes de laboratório evidenciaram que compostos da própolis verde têm potencial contra doenças neurodegenerativas, entre as quais o Alzheimer. Todos sabemos o que é própolis: a substância produzida pela abelha para revestir e higienizar a colmeia. Ela tem poder antibacteriano para o organismo humano.

Equipe de pesquisadores da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da USP detectou nova dimensão medicinal da própolis verde. Este é produzido a partir da resina coletada do alecrim do campo, planta nativa da Mata Atlântica. As abelhas misturam à saliva e cera e isso é capaz de induzir diferenciação neuronal, ou seja, a transformação de neurônios especializados em outras células do sistema nervoso.

Isso aumenta a capacidade de conexão entre neurônios e promove ações antiapópticas, ou seja, reduzem a morte celular.

Tais achados significam promissora perspectiva para a prevenção e controle de doenças do sistema nervoso. Melhor ainda, é que a própolis verde é exclusividade brasileira, que pode gerar impactos científicos, econômicos e sociais.

A pesquisa também serve para enfatizar a necessidade de salvar as abelhas, cujo desaparecimento decorre do excessivo uso de substâncias químicas – os herbicidas – e de fertilizantes proibidos em sua origem, que envenenam as plantas. O afã de potencializar a produtividade do agronegócio leva a agroindústria a menosprezar as advertências dos cientistas.

As abelhas são essenciais à polinização, à produção do mel e da própolis. Se elas desaparecerem, romper-se-á um elo vital da cadeia existencial e o homem não terá como substituir esse presente valioso e imprescindível da Providência.

Cada qual tem condições de contribuir para que não cheguemos a essa catástrofe: defendendo o verde, plantando árvores e todas as plantas que servem de alimento para as nossas amigas, as abelhas. Com isso, ajudando a enfrentar esse mal terrível que é o imponderável Alzheimer.

O assim chamado mal

Por que existe o mal? O ser humano já nasce com essa característica de maldade, pronto para agredir, hábil para machucar o semelhante?

Os homens são capazes de se causarem mutuamente sofrimentos piores do que a morte. A tortura psicológica, a humilhação, o aviltamento, podem ser mais dolorosos do que a morte, que é instantânea. Deixar de viver é um átimo. Sofrer continuamente leva uma eternidade.

A destruição da generosidade, a corrosão na crença da bondade instintiva ao gênero humano, é uma perversidade atroz. O mal se dissemina e sequer é percebido pela legião dos bem-aventurados que dispõem de tudo, até em excesso, e não se comovem com a legião, numericamente muito superior, daqueles que sobrevivem nas condições mais aviltantes.

A matança automática dos indefesos continua mundo afora e dela existem singulares exemplos no Brasil, campeão da desigualdade. Outra espécie de maldade é a maledicência. Um verdadeiro assassinato espiritual, a arte de fazer alguém espiritualmente indefeso, que vai da mentira à difamação.

São sintomas da miséria humana, a estabelecer o reino do mundo invertido, exatamente ao contrário do que deveria ser o espaço de desenvolvimento coletivo da virtude, onde cada qual cresceria em harmonia, até chegar à plenitude qualitativa.

Não significa uma ação premeditadamente homicida. Apenas se deixa acontecer. Sem reação alguma. Sem atuar no sentido de impedir a prática do mal. Uma inércia que é pecado gravíssimo, na categoria de mortal.

Contudo, fala-se em humanitarismo, em século da paz, quando o espetáculo da destruição das reservas internas de ética e moral deixam em situação confortável aquele que consegue encontrar a condição de cômodo gozo da boa vida, com um mínimo esforço.

Será que teremos de reconhecer que o projeto humano é um fracasso? O que estamos fazendo para convertê-lo em sucesso?

Minha prática equivale ao meu discurso? Onde é que eu falho? Tenho feito exame de consciência diário sobre o meu papel no mundo? Este curto estágio de algumas décadas tornou a humanidade um coletivo melhor ou me acumpliciei junto aos que prosseguem a vitimar seus irmãos, sem pudor algum, sem qualquer resíduo de remorso?

 

(Colaboração de José Renato Nalin, reitor da Uniregistral, docente da Pós-graduação da Uninove e Secretário-Executivo das Mudanças Climáticas de São Paulo).

Publicado na edição 11.024, sábado a quarta-feira, 8 a 11 de agosto de 2026 – Ano 102