As microbolhas do desempenho

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Diante das crises econômicas recorrentes que têm permeado o mundo, a indústria e a agricultura vêm sendo estimuladas a se superarem em feitos inovativos para sobreviveram aos vários solavancos existentes. Ser diferente, sair do lugar comum ou da zona de conforto, aumentar a qualidade e a produtividade, sem, entretanto, aumentar custos, são alguns dos muitos desafios que executivos e empresários têm provado neste início de século XXI.
De fato tudo isso não é novidade. A competição sempre foi uma variável ponderável no planejamento estratégico das empresas, e com o cenário da globalização, essa variável se tornou quase um definidor da manutenção de produtos e serviços no mercado. Buscar alternativas deixou de ser uma opção para ser uma obrigação.
Nesse cenário ímpar, o Japão tem se destacado com a implementação de novas tecnologias que estimulam a mudança do status quo que costuma engessar as companhias. Uma dessas tecnologias trata das microbolhas, bolhas finas e ultrafinas que podem ser menores que o comprimento das ondas de luz. Para se ter ideia, um milímetro cúbico de água pode conter bilhões de microbolhas.

Diversos usos

O mercado de microbolhas, que em 2015 atingiu os US$9,7 bilhões, pode chegar em 2020 à casa dos US$40 bilhões. A chave dessa revolução reside principalmente na diversidade do uso que as empresas estão fazendo dessa tecnologia. Por exemplo, a empresa japonesa Kewpie Corp., responsável pela venda de condimentos e maionese, tem injetado em alguns de seus produtos microbolhas de nitrogênio para dar ao alimento um sabor mais suave e uma validade maior. No segmento de frutos do mar, a Marufuku Suisan Co. passou a injetar microbolhas em tanques com água do mar com o objetivo de retardar a descoloração dos peixes. Já a West Nippon Expressway Co. utiliza as microbolhas para substituir o detergente na limpeza de banheiros de parques, o que reduz em 99% o consumo de água e cerca de 30% o tempo de limpeza.
Há notícias vindas da agricultura também. Usada para irrigação do solo, a água contendo microbolhas carregadas de oxigênio pode acelerar a produção de microorganismos do solo, o que estimula o crescimento das raízes e a absorção de nutrientes. No Japão a água injetada com microbolhas está sendo usada para irrigar tomates e morangos orgânicos.

Na saúde brasileira

O Instituto do Coração do Hospital das Clínicas de São Paulo já testa o uso das microbolhas desde 2014 com o objetivo de evitar a morte do músculo cardíaco em casos de infarto. Como se sabe, a ausência de oxigênio nesse músculo provoca a sua necrose, o que diminui a capacidade de contração. Se metade do coração necrosar pode haver a morte da pessoa. Assim, evitar que um coágulo estrangule a passagem de sangue, e, consequentemente, de oxigênio, é fundamental para se evitar problemas maiores.
O processo de destruição de coágulos utilizando microbolhas surgiu como alternativa às cirurgias de desobstrução e consiste em injetar cerca de dois bilhões de microbolhas na veia do paciente que viajam pelo seu corpo até atingir a região peitoral. Ali, bem próximas ao coágulo, as microbolhas acabam por se romper estimuladas por um ultrassom de máxima intensidade, liberando um microjato que literalmente pulveriza a obstrução identificada.
A utilização das microbolhas apresenta algumas vantagens sobre o método tradicional de cateterismo. Por exemplo, ela pode ser feita com infraestrutura mínima composta de um aparelho portátil de ultrassonografia e não necessita de um profissional médico para conduzir o procedimento, desde que haja o adequado diagnóstico. Além disso, o processo tende a ser muito mais ágil, podendo ser realizado na casa do paciente ou mesmo na ambulância durante o deslocamento até o hospital.
De acordo com o cardiologista Wilson Mathias Junior, responsável pela pesquisa, vários pacientes já passaram pelo processo no Brasil e nos Estados Unidos testes em laboratório estão sendo conduzidos pelo cardiologista Thomas Porter da Universidade de Nebraska.
Importante frisar que o procedimento com microbolhas, embora destrua o coágulo, não atinge as placas de gordura aderentes às paredes dos vasos. Nos casos graves, a cirurgia acaba sendo indispensável.

Publicado na edição nº 9964, de 22, 23 e 24 de março de 2016.