As moléculas inebriantes

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Seria impensável nos dias de hoje sair de casa para um evento social ou mesmo laboral sem a aplicação de um suave perfume, como se fosse um adereço a mais em nossa coleção de vaidades.
Esse costume não é recente e ao longo de sua existência perpassou por inúmeros motivos que variaram no tempo e no espaço. Os registros mais antigos de que se tem notícia vêm do oriente médio, mais especificamente do Egito. Lá pelos idos de 3.000 a.C. esse povo costumava queimar madeiras, ervas e incensos numa forma de levar os seus pedidos e orações mais rápido aos deuses, carregados pelas nuvens de fumaça aromática.
Como acreditavam em reencarnação, também cuidavam dos corpos dos mortos em alto estilo, limpando-os e perfumando-os com as melhores essências extraídas do musgo de carvalho, da resina de pinho e de vários outros produtos obtidos na natureza. Esse hábito com o tempo também conquistou os vivos, o que exigiu uma fabricação maior e mais variada de essências, já que se tornava comum utilizar uma fragrância para diferentes partes do corpo.
Embora envolta num misticismo perene, a história de Cleópatra, a última rainha do Egito, é exemplo explícito de adoração aos perfumes. Dizem os escritos que quando os romanos invadiram os aposentos reais, encontraram Cleópatra morta e sentiram o odor de sua suave fragrância.

Odores medievais

A passagem do perfume pela Idade Média, embora um tanto contraditória, deixa clara a importância que a alquimia teve em seu desenvolvimento e aprimoramento. Até o século XIV os odores emanados dos organismos eram relativamente bem aceitos. Era comum, por exemplo, jogar matérias fecais pelas ruas em Madri. Na Inglaterra as autoridades mandavam abrir as fossas sépticas e na França, o seu representante maior, o rei Luis XIV, costumava urinar pelas paredes dos palácios.
Muito se devia a crença de que doenças como a peste negra, que assolou a Europa no século XIV, poderiam ser combatidas pelo simples mau cheiro. Alguns médicos apoiavam a prática de mergulhar partes do corpo em reservatórios de esgoto para curar dores, reumatismos ou outras enfermidades.

Iluminismo e tecnologia

O surgimento do Iluminismo trouxe consigo a revolução industrial e um novo pensamento cultural que abominava os odores humanos antes suportados. A idéia era a desinfecção geral, retratada na literatura por Émile Zola em seu Germinal, quando a esposa do patrão abre as janelas da grande sala para esvaziar os odores da classe operária que ali esteve em reunião, ou em ações mais práticas como fez Oswaldo Cruz no Rio de Janeiro no início do século XX, ao aplicar a vacinação em massa e desmontar as favelas das áreas centrais e portuárias.
Voltando à Europa, em 1714 o italiano Jean-Marie Farina produziu e patenteou um produto chamado Kölnisch Wasser, a primeira água de colônia. Na França, na mesma época, começaram a surgir as essências, principalmente na região de Grasse. Muitas se destacaram e se tornaram famosas mundialmente como a Guerlain, Pinaud, Roger Gallet, e a Hermès. Na Inglaterra surgiram as marcas Yandley e Atkinsons.

Parcerias na modernidade

Em todo o mundo o perfume deixou de ser apenas um produto isolado para fazer parcerias com a arte e principalmente com a moda. Um dos primeiros estilistas que uniu as duas indústrias foi o francês Paul Poiret, ao criar a Parfums Rosine, que dispunha lado a lado nas vitrines roupas e perfumes.
Hoje é difícil imaginar as grandes casas da moda como Christian Dior, Louis Vuitton, Givenchy e Kenzo sem as suas marcas de perfume. Para se ter uma idéia, algumas delas chegam a faturar mais com os perfumes do que com as roupas, seu carro chefe, e nada indica que este contexto venha a se modificar.
Seja para ressaltar a nobreza, seja para espantar a pobreza, o perfume tornou-se um instrumento fundamental das pessoas ao longo dos tempos. Quem não acredita que em poucos anos vão surgir ratos geneticamente perfumados? E dos ratos para os homens, são só alguns genes.

 (Colaboração de Wagner Zaparoli, natural de Bebedouro, doutor em Ciências pela USP, mestre em Ciência da Computação, professor de lógica e consultor. E-mail: [email protected]).

Publicado na edição nº 9584, dos dias 15 e 16 de agosto de 2013.