Auri sacra fames

José Renato Nalini

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A “maldita fome de ouro” é companhia permanente dos humanos. Animais não se interessam por dinheiro. Este vício, só os chamados racionais cultivam. A expressão em latim foi utilizada por Virgílio, na sua “Eneida”, para condenar a insaciável ganância por dinheiro. A busca incondicionada e desmedida por dinheiro é a fonte da corrupção moral.

Está presente em todas as épocas, mas recrudesce na República. E não é fenômeno recente. Diz-se que Rui Barbosa era angustiado por seu ambiente doméstico.

O testemunho é de Mário de Lima Barbosa, que viveu longamente na intimidade do Conselheiro, sobre quem chegou a escrever um livro.

Diz ele:

– “A família de Rui jamais procurou tirar dele senão dinheiro. Dona Maria Augusta foi, para ele, um anjo e um demônio. Rui era tratado por ela como um filho, senão como uma filha. Cercava-o de mimos e cuidados; mas não o poupava para extorquir-lhe dinheiro, impondo-lhe trabalhos enormes cujo produto repartia pelos filhos, pelos irmãos e pelos genros. Governava-o tiranicamente, obrigando-o a escrever, alegando necessidades simuladas, pareceres jurídicos contrários às suas convicções. A Light era uma vítima constante da família Rui Barbosa. Toda a família ia ali buscar dinheiro, em nome dele”.

À mesa de refeições de Rui só se falava de luxo e dinheiro. O Conselheiro mesmo, não se importava com isso:

– “Eu tenho nojo de tudo isso. Luxo e dinheiro! O conforto sim; e o dinheiro para conseguir o conforto. Mas aqui, não se compreende isso. É só luxo e dinheiro!”.

Por sinal, Rui era assediado por amigos íntimos, que iam solicitar sua “opinião” sobre assunto jurídico. Ele atendia e as pessoas agradeciam e iam embora. No portão, à saída, Dona Maria Augusta cobrava a consulta: – “O Conselheiro come, o Conselheiro tem família, o Conselheiro tem criadagem… Não é justo pedir a ele, de graça, a única coisa que ele pode vender…”.

Infelizmente, esse hábito perdura e nem sempre há D. Maria Augusta para lembrar quem se aproveita dos “palpites” para resolver seus assuntos intrincados.

 

(Colaboração de José Renato Nalini, reitor da Uniregistral, docente da Pós-graduação da Uninove e Secretário-Executivo das Mudanças Climáticas de São Paulo).

A “maldita fome de ouro” é companhia permanente dos humanos. Animais não se interessam por dinheiro. Este vício, só os chamados racionais cultivam. A expressão em latim foi utilizada por Virgílio, na sua “Eneida”, para condenar a insaciável ganância por dinheiro. A busca incondicionada e desmedida por dinheiro é a fonte da corrupção moral.

Está presente em todas as épocas, mas recrudesce na República. E não é fenômeno recente. Diz-se que Rui Barbosa era angustiado por seu ambiente doméstico.

O testemunho é de Mário de Lima Barbosa, que viveu longamente na intimidade do Conselheiro, sobre quem chegou a escrever um livro.

Diz ele:

– “A família de Rui jamais procurou tirar dele senão dinheiro. Dona Maria Augusta foi, para ele, um anjo e um demônio. Rui era tratado por ela como um filho, senão como uma filha. Cercava-o de mimos e cuidados; mas não o poupava para extorquir-lhe dinheiro, impondo-lhe trabalhos enormes cujo produto repartia pelos filhos, pelos irmãos e pelos genros. Governava-o tiranicamente, obrigando-o a escrever, alegando necessidades simuladas, pareceres jurídicos contrários às suas convicções. A Light era uma vítima constante da família Rui Barbosa. Toda a família ia ali buscar dinheiro, em nome dele”.

À mesa de refeições de Rui só se falava de luxo e dinheiro. O Conselheiro mesmo, não se importava com isso:

– “Eu tenho nojo de tudo isso. Luxo e dinheiro! O conforto sim; e o dinheiro para conseguir o conforto. Mas aqui, não se compreende isso. É só luxo e dinheiro!”.

Por sinal, Rui era assediado por amigos íntimos, que iam solicitar sua “opinião” sobre assunto jurídico. Ele atendia e as pessoas agradeciam e iam embora. No portão, à saída, Dona Maria Augusta cobrava a consulta: – “O Conselheiro come, o Conselheiro tem família, o Conselheiro tem criadagem… Não é justo pedir a ele, de graça, a única coisa que ele pode vender…”.

Infelizmente, esse hábito perdura e nem sempre há D. Maria Augusta para lembrar quem se aproveita dos “palpites” para resolver seus assuntos intrincados.

(Colaboração de José Renato Nalini, reitor da Uniregistral, docente da Pós-graduação da Uninove e Secretário-Executivo das Mudanças Climáticas de São Paulo).

Publicado edição 11.008, sábado a sexta-feira, 23 a 29 de maio de 2026 –101