Boas intenções

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Antonio Carlos Álvares da Silva

Tive notícias, que uma entidade benemerente de Bebedouro, iniciou campanha, visando eliminar os maus tratos em animais. A meta é fazer cessar toda a violência contra cães, gatos e aqueles, que são montados e puxam carroças, como burros e mulas. O objetivo é mais que legítimo, já que os animais, depois de domesticados, perdem totalmente capacidade de auto se defenderem, tornando-se vítimas passivas de seus donos e conviventes. Todavia, a notícia tem um adendo, que me deixou em dúvida. Mais que em dúvida, me deixou preocupado. Pelo seguinte: A entidade vai lutar também, para que os animais de tração, a maioria burros e mulas, sejam proibidos de prestarem seus serviços usuais, tais como tração de carroças e similares, independentemente de estarem ou não sendo maltratados. Nesse passo, não vou me manifestar sobre as dezenas de milhares de animais, que são sacrificados diariamente, para servirem na alimentação humana. O assunto é muito complexo. Não cabe nesse espaço. Voltando à proibição de burros e mulas prestarem serviços: Minha preocupação decorre do fato desses animais não nascerem naturalmente, como certa quantidade de aves, cães e gatos. Eles precisam serem gerados pela ação de ser humano, interessado em ter a sua propriedade. E é muito claro, que quem quer produzir burros e mulas, pratica essa atividade, para fazê-los prestar serviços, para si, ou outrem. Isso porque essa produção dá trabalho e custa dinheiro. Ninguém vai fazê-lo por prazer. Dessa forma, se a entidade benemérita conseguir, que os muares sejam proibidos de trabalhar, ela, automaticamente estará contribuindo, para que eles sejam extintos. No caso de burros e mulas existe uma particularidade, que aumenta esse risco: Eles são resultado de cruzamento de jumentos com éguas, que são espécies diferentes. Por isso, já nascem estéreis. Não têm capacidade de se reproduzirem. Não geram descendentes. Nessa hora, sempre tem alguém, que vai retrucar: Para ter uma vida de trabalho, é melhor ser extinto. Não concordo. Posso estar errado, porém, acho, que todo ser quer nascer e viver, mesmo se arriscando a não levar a vida querida. Reconheço, que essa minha visão decorre, pela simpatia que tenho pelos burros entre a maioria dos outros animais. Percebi, que sua má fama decorre porque ele é tido como teimoso. Essa fama nasceu, porque, quando o seu condutor exige dele um trabalho, acima de sua capacidade ele se recusa. Também acontece, quando ele é dirigido, para passar por um lugar, onde existe um risco não percebido por seu condutor, tais como cobras e caixas de marimbondos, escondidos no capim mais alto. Ele pratica uma autodefesa, que é confundida com falta de inteligência. Sei, que os burros fazem certas coisas, que demonstram inteligência e habilidade. Chegam a abrir porteiras, removendo a tramela, que as fecham, com a boca. E outras semelhantes. Por tudo isso, acho um desperdício eles deixarem de ser criados pelos humanos. Não esquecer, que a ciência sempre lamenta as espécies, que são extintas na natureza. Dessa forma, existindo há séculos, lamento a possibilidade deles serem extintos, pela ação de pessoas bem intencionadas. Mas vamos deixar reafirmado o velho ditado: “De boas intenções, o inferno está cheio”.

(Colaboração de Antônio Carlos Álvares da Silva, advogado bebedourense).

Publicado na edição nº 9985, de 14, 15 e 16 de maio de 2016.