Buscando a salada no telhado

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A ideia de semear os grandes centros urbanos para deixá-los menos cinzentos não é nova nem pioneira. Os Estados Unidos e a Europa já curtem esse hábito há anos, espalhando plantações de baixo calibre por espaços disponíveis e até reinventados. Novos termos estão sendo criados para contextualizar o assunto, como arquitetura verde, revolução orgânica, hortelões urbanos e ecotelhados.
Algumas iniciativas têm caráter mais estético ou voltado para a sustentabilidade do meio-ambiente, como os telhados verdes e ecotelhados, que utilizam jardins suspensos para captar água de chuva, energia solar e servir como isolante térmico. Outras perpassam pela produção de hortaliças, raízes e leguminosas possíveis de abastecer demandas de pequeno e médio porte.
O fato é que esse movimento verde tem evoluído a passos largos, embora careça de uma sistematização organizacional integrada, que possa unir produtores e consumidores em larga escala, com viabilidade financeira para ambas as pontas.

As hortas socialistas de Cuba

Com a queda do muro de Berlim e o colapso da União Soviética em fins da década de 1980, países que dependiam exclusivamente daquela economia forte entraram em uma espiral de declínio financeiro sem precedentes. Foi o caso da ilha de Fidel Castro, Cuba, que com os seus 10,6 milhões de habitantes em 1990 começou a sofrer uma crise de desabastecimento alimentar que colocou toda a população em polvorosa, sob risco de saúde.
Diante desse cenário negativo, os habitantes da capital Havana, que poderiam ficar choramingando a má sorte (sic!), tomaram terraços, pátios e terrenos baldios e iniciaram a segunda revolução cubana, plantando tomates, feijão, bananas e vários outros tipos de alimentos dentro dos próprios bairros a fim de evitar a necessidade de transportar a produção, haja vista que o sistema de transporte público ou privado da ilha também estava completamente degradado.
O governo revolucionário apoiou a iniciativa, criando departamento de agricultura específico para a produção urbana, distribuindo sementes, adotando pontos de venda direta e liberando terrenos improdutivos. Resultado dessas ações: hoje 80% dos alimentos frescos de Cuba são originados na agricultura urbana com controle orgânico de pragas, sem uso de pesticidas.

Os telhados verdes do capitalismo

Nos Estados Unidos a ideia de produção verde em centros urbanos pouco tangencia a iniciativa comunitária de Cuba. Ali a alta tecnologia e os ganhos financeiros são as diretrizes básicas para o surgimento de uma enxurrada de “startups” (empresas recém-criadas que buscam atividades inovadoras) com vistas para esse tipo de produção.
O desafio para todas elas não é fácil, como afirma Paul Lightfoot, diretor-presidente da BrightFarms, uma das empresas do ramo. Ele afirma que construir parques agrícolas em coberturas de prédios urbanos é uma tolice dados o custo elevado de produção e o tempo adicional para obter as licenças.
Por outro lado há quem defenda as fazendas urbanas justificando que elas podem prover hortaliças o ano todo, com custo menor de transporte e menor desperdício que as fazendas tradicionais no campo. Exemplo é David Rosenberg, diretor-presidente da AeroFarms LLC, empresa de New Jersey que opera três fazendas urbanas e espera que cada uma delas comece a registrar fluxo de caixa positivo já no primeiro ano.
Grande parte das startups produz alfaces e ervas. A Edenworks, situada no Brooklyn em Nova Iorque, por exemplo, produz alface em ciclos de 18 a 21 dias o ano todo, feito difícil de ser alcançado pelas fazendas tradicionais no campo. Normalmente um pacote de alface ali produzido sai por US$3,99.

As lajes tupiniquins

O Brasil, em função de sua imensidão territorial, ainda não adotou sistematicamente a ideia das fazendas urbanas, mas possui iniciativas interessantes. Uma delas, iniciada em 2012 e desconhecida da maioria dos paulistanos que vive na grande metrópole, está sendo desenvolvida pelo Shopping Eldorado. Trata de um processo de compostagem de cerca de 600 quilos de lixo orgânico produzidos pelos restaurantes locais que são transformados em adubo utilizado na produção de hortifrútis, ervas e flores. Para se ter ideia, a última colheita produziu 3 mil pés de alface, 300 quilos de berinjela, 200 quilos de abobrinha e 100 quilos de pimentão. Tudo consumido pelos próprios funcionários do shopping.
Outras iniciativas vindas de Curitiba, Florianópolis e da própria cidade de São Paulo também começam a dar voz e alma para essa ideia que, aparentemente, revolucionará os modos e os locais da produção agrícola em um futuro não tão distante. É plantar para ver.

Publicado na edição nº 9981, de 5 e 6 de maio de 2016.