Castelo de cartas

José Renato Nalini

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Antigamente, muito antigamente, as pessoas brincavam com as cartas do baralho e chegavam a construir frágeis armações. Bastava um sopro para derrubá-las. É o que se chamava de “castelo de cartas”. Montagens aparentemente firmes, mas desprovidas de qualquer resistência.

É o que parece ocorrer com o negacionismo que, qual doença contagiosa, vai se espalhando pelo planeta. Bastou o retrocesso na geopolítica da maior democracia ocidental e aqueles que não eram ecologistas convictos deixaram seus propósitos e voltaram a recuar nas políticas ambientais.

Mas o mundo presta atenção em tudo. Por isso é que a lamentável saída das empresas e da Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais – Abiove, do acordo conhecido como “moratória da soja”, gerou reação na Europa. Esse ajuste foi firmado por companhias, organizações da sociedade civil e órgãos governamentais, cujo objetivo é impedir a continuidade do desmatamento na Amazônia.

Inexplicável o impensado gesto, considerado o agravamento da questão climática, hoje mais próprio a um cataclismo do que a meras mudanças. Prontamente, as principais redes varejistas do Reino Unido e União Europeia escreveram contundente carta endereçada aos CEOs das empresas que deixaram o acordo. Consta da mensagem: “Recuar significa enfraquecer as medidas dissuasivas existentes contra o desmatamento, prejudicar os esforços futuros para desenvolver acordos de proteção colaborativos e ameaçar os esforços para garantir a sustentabilidade de seus investimentos na produção de soja brasileira diante de mudanças climáticas aceleradas”.

Não é impossível conciliar agricultura rentável e preservação florestal. Por que as lucrativas empresas não cuidam de reflorestar a imensa área degradada do Brasil, que representaria sequestro de carbono e mostraria sua consciência ecológica? Que se invista em produtividade afinada com os objetivos ambientais contidos no artigo 225 da Constituição do Brasil, texto normativo em pleno vigor. Retrocesso neste momento depõe contra esta nação que já foi “promissora promessa verde” mas há pouco também foi considerada “Pária Ambiental”. Juízo, minha gente!

 

Isso é Justiça Climática

Se todos são responsáveis pelo aquecimento global, embora em proporções distintas, a tutela do ambiente é também missão de que se não pode descuidar.

Interessante o conceito de “Justiça Climática”, para a proteção prioritária dos vulneráveis, as vítimas preferenciais dos fenômenos extremos. São os mais injustiçados, pois os que menos prejudicam a atmosfera, já que não possuem os potentes veículos movidos aos venenosos combustíveis fósseis.

Mas há um outro aspecto da Justiça Climática que não pode ser negligenciado. É aquele de levar à barra dos Tribunais os governos omissos ou cúmplices dos exterminadores do futuro. É o que vem acontecendo em algumas partes do mundo e não demorará para chegar ao Brasil.

A sociedade norte-americana sempre foi muito cônscia de seus direitos e deveres, pois ali o Federalismo nasceu espontaneamente, não imposto por mero espírito de cópia. Pois ali, uma coalizão de grupos ambientalistas e de saúde movem processo contra o governo federal, diante da revogação do texto que serviu de fundamento à luta contra as emissões de gases do efeito estufa no território ianque.

A contundência da demanda é eloquente e inspiradora: “Processamos para impedir de reduzir a cinzas o futuro de nossos filhos com o objetivo de oferecer um gigantesco presente às companhias petrolíferas”.

Era muito importante a decisão adotada por Barack Obama em 2009 e que se tornou conhecida como determinação de perito, que estabelecia que seis gases de efeito estufa eram perigosos para a saúde.

Eles continuam a ser ainda mais perigosos, diante da perseverança em expelir veneno na atmosfera, com o negacionismo que recrudesceu de forma trágica, exatamente no momento em que o relógio da meia noite está sinalizando a ultrapassagem do momento de transição para a catástrofe.

A união de várias entidades ambientalistas e de saúde mostra que a sociedade ainda conserva lucidez e pode, quando quer, bater às portas da Justiça para impedir que governos pratiquem o mal que atinge não só os viventes, como as futuras gerações.

Que a ação prospere e que se crie precedente.

 

(Colaboração de José Renato Nalini, reitor da Uniregistral, docente da Pós-graduação da Uninove e Secretário-Executivo das Mudanças Climáticas de São Paulo).

Publicado na edição 11.032, sábado a terça-feira, 12 a15 de setembro de 2026 – Ano 102