Cidadania alerta

José Renato Nalini

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Cada época oferta a seus coetâneos os desafios postos no horizonte de quem peregrina pela existência. Não se passa impune pela vida. É importante que as pessoas tenham noção de que o mundo existiu durante milhões de anos, sem a nossa presença nele. Daqui a pouco, partiremos também e, com o passar dos dias, seremos completamente esquecidos.

Se podemos celebrar a inocorrência de guerras externas em nossos dias, embora muitos lamentem o recrudescimento da violência – cruenta e sob as outras mais diversas modalidades – não nos esqueçamos de que somos vítimas atuais e futuras das mutações climáticas.

A atividade humana comprometeu o ritmo natural da vida na Terra. Inquilinos infiéis, sacrificamos o verde, poluímos o ar, a terra e a água. Já estamos colhendo as consequências.

Se há quem diga que o ponto de inflexão já passou – não há mais condições de frear o rumo das coisas em direção à catástrofe – outros, mais otimistas, pensam que temos condições de mitigar os efeitos do aquecimento global.

O que se pode fazer individualmente? Primeiro, refletir. A enfermidade do planeta afeta todas as pessoas, inclusive eu mesmo. Segundo: como se chegou até aqui? Mediante desmatamento, desrespeito às demais espécies de vida – vegetal e animal irracional – e postura inteiramente anti-higiênica. Somos grandes produtores de resíduos sólidos.

A receita vem do diagnóstico. Plantar árvores. Não poluir. Reduzir o descarte. Aprender a reciclar. Mergulhar na economia circular. Tudo tem um ciclo de existência e não precisa acabar como lixo. O uso inteligente das coisas que nos servem já é um grande passo rumo à conversão da humanidade.

Os humanos devem repensar sua atitude de menoscabo e de insensibilidade em relação à natureza. Até porque, fazem parte dela. Quando a desrespeitam, estão abreviando a duração da experiência humana sobre o planeta.

Ainda é tempo de reverter o quadro que aparenta ser tétrico. Acordemos e recuperemos nossa condição de defensores do ambiente, do verde, da atmosfera e da água pura. Para bem de nós mesmos e de nossos descendentes. 

O inferno chegou

Nos primeiros treze dias de novembro, quase dois mil e quinhentos focos de incêndio foram registrados no Pantanal. A maioria no Mato Grosso, onde o fogo destrói reservas particulares, áreas de preservação estadual e federal, fazendas e terras indígenas.

Quase mil hectares já desapareceram. Com a onda de calor que derruba as teses dos céticos e prova que a humanidade escolheu o apocalipse em lugar de cuidar de seu único habitat, a situação tende a piorar.

A situação é tétrica, se comparada com 2022, quando se registraram apenas 57 pontos de calor no Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. É que naquele ano, o mês de novembro encontrou o pantanal alagado, por força das chuvas de setembro e outubro.

Não adianta culpar “El Niño”, mas é preciso acordar para a urgência de medidas mais drásticas. Como observa o presidente da ONG SOS Pantanal, Alexandre Bossi, “o incêndio não respeita divisas”. Todos têm de se unir: Governos Federal, Estadual e Municipal, Terceiro Setor e sociedade civil.

Situação de emergência em inúmeras cidades, população ameaçada de ter de deixar o espaço em que habitam há várias gerações, sem falar na queda do movimento do turismo, tão vital para a economia mato-grossense.

O estágio de secura da terra e da vegetação que morreu e resta calcinada, as altas temperaturas, os ventos, a baixa umidade, os raios, tudo forma uma condição ideal para que o Pantanal se extinga e, em seu lugar, surja um deserto.

Parece surreal que a região mais úmida do Brasil, a parte que permanecia alagada durante quase todo o tempo, seja consumida pelas chamas. E isso não é causado pela natureza. É resultado da inconsequência, da insanidade e da verdadeira insensatez com que se comporta o animal que se considera racional. E que não percebe o risco de desaparecimento da vida em grande parcela do território nacional.

Haverá tempo suficiente para que o juízo e a conversão ecológica façam com que a natureza se recomponha, as árvores sejam replantadas, façam a água retornar e afastem o pesadelo que hoje vivem os mato-grossenses? Não há tempo a perder. É urgente afastar a sensação de que o inferno chegou.

(Colaboração de José Renato Nalini, reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e secretário de mudança climática do município de São Paulo).

Publicado na edição 10.824, quarta, quinta e sexta-feira, 28 e 29 de fevereiro e 1º de março de 2024