
Qualquer pessoa provida de um mínimo de discernimento pode constatar que o clima está doente. A enfermidade do planeta é causada por nós mesmos, pérfidos inquilinos. Sacrificamos a natureza, dela extraímos os recursos naturais e não repomos como deveríamos. A ciência alertou durante muitas décadas. Hoje, quem assumiu o descontrole foi a própria natureza.
Chuvas inclementes e violentas em todos os lugares. Mortes continuam a ocorrer. Só no Estado de São Paulo, foram 19 neste 2026. Mais dezenas em outros Estados. Em Juiz de Fora, numa só noite, 14 pereceram em virtude das tempestades.
Nos Estados Unidos, as nevascas paralisaram as aulas, interromperam o tráfego aéreo e deixaram milhões assustados. Avalanche nas Montanhas Rochosas evidencia aquilo que os cientistas já vinham afirmando: o aquecimento global eleva o risco de desmoronamentos. Foram computadas 123 mortes por avalanche no oeste dos Estados Unidos. Assim como ele, o aquecimento provocado pelo excesso de emissão de gases do efeito estufa, é a causa de perda de terra firme, entregue ao mar que tem o seu volume aumentado em virtude do degelo das calotas polares. É o que está a acontecer no litoral brasileiro, desde Maceió até Camboriú.
As cidades têm de assumir o enfrentamento desse estado de coisas antinatural. Os fenômenos não são naturais. São provocados pela inconsciência humana. São as populações urbanas as vítimas preferenciais desses fenômenos extremos e a cidadania que inflou os municípios, num êxodo rural, agora tem de colaborar para atenuar os impactos e para adaptar a cidade, a fim de que ela possa suportar as desgraças.
Como é que ela pode ajudar? Primeiro, plantando árvores e cuidando daquelas que já existem. A árvore é a maior amiga da vida, inclusive da humana. Depois, descartando adequadamente o seu desperdício. O exagero na produção de lixo faz com que este frágil planeta se torne uma esfera coberta de imundície. Isso não condiz com a pretensão humana de ser a primícia dentre as espécies, a única provida de razão. Vamos agir para provar que isso não é uma falácia.
Escravidão digital
A homogeneização do pensamento, controlado por redes sociais teleguiadas por IA – Inteligência Artificial, conduz a essa condição servil: a escravidão digital. É politicamente incorreto pensar de outra forma, ter ponto de vista não coincidente com o que deve predominar.
A servidão digital gera fanatismo. Parece incompreensível que pessoas presumivelmente eruditas, com boa formação integral, em todos os níveis da educação formal, ajam como autômatos. Zumbis irados, que odeiam aquele que não se identifica com o que eles acham de tudo.
Um brasileiro inconformado com tal situação do mundo criou a “Ilha do Conhecimento”. É na Toscana, Itália, e o propósito é manter espaço em que as pessoas que pensam de forma diversa da maioria possam dialogar. Um espaço de divergência civilizada, polida, gentil e cordial.
Espécie de alternativa à cruzada mundial movida pelas grandes empresas de mídia digital, que querem robotizar as pessoas, fazê-las pensar igual. Para, igualmente, produzir maior lucro para as big techs. Objetivo saudável de Marcelo Gleiser.
Gleiser é considerado um cientista humanista, que procura conciliar ciência e espiritualidade. Escreveu “Mentes brilhantes não pensam igual” e usa imagem lúdica e singela. “As respostas para as grandes perguntas vêm de quatro pernas da cadeira existencial humana: a ciência, a filosofia, a espiritualidade e as artes. Se você não tem diálogo entre essas quatro dimensões, a cadeira cai”.
Ele se preocupa com o advento da IA, que está a cuidar de tudo e a substituir o humano, por comodidade de quem não quer ter o trabalho de pensar. Perder a essência da humanidade é uma tragédia. E não é a IA que leva a isso. É a nossa incapacidade de assumir responsabilidades e de trabalhar com a emoção. “A coisa mais difícil é ter generosidade emocional. Você tem que se colocar no lugar do outro. Entender que esse outro, que pensa diferente de você, tem uma história de vida, uma narrativa que o levou a pensar dessa forma. Antes de se bater de cabeça, é importante lembrar que todo mundo quer ser amado, quer viver com dignidade, quer ser respeitado”.
Vale a pena ler o livro e, se possível, frequentar a “Ilha do conhecimento”.
(Colaboração de José Renato Nalini, reitor da Uniregistral, docente da Pós-graduação da Uninove e Secretário-Executivo das Mudanças Climáticas de São Paulo).
Publicado na edição 11.038, quarta, quinta e sexta-feira, 7, 8 e 9 de outubro de 2026 – Ano 102





