
Até a data em que esse artigo foi escrito, permanecia em curso a guerra entre os Estados Unidos da América (EUA) e Israel contra o Irã. Um conflito que envolve questões milenares, de natureza religiosa e de ódio mútuo, com potências nucleares diretamente envolvidas. Literalmente, um perigoso barril de pólvora.
A aliança EUA e Israel alega que os ataques realizados contra o país persa foram necessários face à ameaça que um Irã com bombas nucleares representaria ao mundo, especialmente ao Ocidente. O Irã, por sua vez, alega que seu programa nuclear sempre teve fins pacíficos e que não havia o risco do desenvolvimento de uma arma que justificasse o ataque recebido. Como consequência dos ataques, o Estreito de Ormuz, região pela qual é transportado 1/5 do petróleo mundial, bem como fertilizantes e gás natural, teve seu movimento severamente afetado, com impactos diretos sobre mercados e inflação em todo o mundo.
A animosidade entre EUA e Irã é antiga e data de 1979, quando uma monarquia amigável aos interesses dos norte-americanos foi deposta em um golpe encabeçado por um grupo fundamentalista islâmico, até hoje no poder. Inimigos declarados desde então, EUA e Irã trocaram acusações e ameaças nas últimas décadas, culminando no ataque atualmente em curso.
Quanto a Israel e Irã, a rixa é ainda mais antiga e remete a questões fundamentalmente religiosas, que resultaram em promessas mútuas de aniquilação. Um ódio enraizado que dificilmente será controlado ao final dessa guerra. Com um regime ditatorial sob pressão e face a um pretenso e iminente desenvolvimento de armas nucleares, EUA e Israel, antigos aliados e com interesses em comum na região, entenderam que era hora de atacar o Irã.
Inobstante os horrores de um conflito armado, com o uso de armas modernas com grande poder de destruição, ainda mais em regiões densamente povoadas, como Teerã, a capital do Irã, essa guerra promete impactar profunda e longamente a população do Oriente Médio, a relação dos EUA com o mundo, os mercados internacionais e a infraestrutura energética da região. E isso é muita coisa.
É certo que, com a guerra, aumentará a resistência dos muçulmanos com os EUA e com Israel. Ambos, que já não eram bem-vistos pelo mundo árabe, devem enfrentar um ambiente ainda mais hostil e desafios ainda maiores de segurança interna e externa. Nesse contexto, o risco de atentados terroristas contra alvos norte-americanos e israelenses deve aumentar, assim como deve se tornar mais desafiadora a relação dos EUA e de Israel com seus aliados históricos, especialmente os europeus, que em nenhum momento aprovaram os bombardeios no Irã.
No mais, as instabilidades e incertezas geradas pela guerra afetam duramente os mercados internacionais, com quedas acentuadas do valor de ações em todo o mundo e corrida para ativos considerados mais seguros pelos investidores. Por fim, o bombardeio de estruturas de extração, refino e transporte de petróleo e gás natural na região deve manter elevados os preços de combustíveis no médio prazo, já que tais infraestruturas são caras e demandarão tempo para serem consertadas. Por certo, tais incertezas geram aumentos de preços em todo o mundo, com pressão inflacionária e tendência à manutenção de juros mais altos por um maior período, impactando as economias dos países desenvolvidos e em desenvolvimento.
Assim, fica claro que conflitos armados, tais como o atualmente em curso no Irã e adjacências, impactam não apenas a população local, mas todo o planeta. Para além das vidas perdidas, os efeitos diretos e indiretos da guerra ainda serão sentidos por muito tempo, com desfecho social, econômico e geopolítico incertos e imprevisíveis.
Publicado na edição 10.999 sábado a terça-feira, 11 a 14 de abril de 2026 – Ano 101





