Construção do futuro: alguns subsídios para o próximo mandato presidencial

Paulo Haddad

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Durante o processo eleitoral de 2022, deverá haver intensos debates e controvérsias em torno dos programas de governo dos candidatos à Presidência da República. Participei desses debates nas últimas eleições, elaborando análises e propondo alternativas de soluções para os problemas socioeconômicos e socioambientais do País.

Neste documento, busquei dar uma contribuição para as equipes dos candidatos que estarão, ao longo de 2022, organizando as ideias e as diretrizes das políticas, programas e projetos que esses candidatos apresentarão aos eleitores de todo o País e de suas regiões. Mais do que ideias de ajustes na atual política econômica, proponho mudanças de rumo nesta política. As sugestões incluem o período entre a eleição e a posse do candidato e não apenas as ações programáticas durante todo o mandato.

O futuro Presidente da República deverá enfrentar a boa luta para reconstruir um Brasil interrompido. Uma luta que será permeada de tensões e conflitos políticos que parecem ser incontroláveis ao longo de todo o seu mandato. Diante dos gigantescos desafios de reconstrução das políticas públicas visando a erradicar a miséria da população, a reduzir as desigualdades sociais da renda e da riqueza nacional, a atenuar os desequilíbrios regionais de desenvolvimento e a promover a conservação, a preservação e a reabilitação dos ecossistemas, o Presidente precisará resistir para não assumir uma postura negacionista do estilo neomalthusiano.

O negacionismo serve para explicar o comportamento de um grupo de pessoas que opta, voluntariamente ou sob a forte influência de alguma liderança política ou comunitária, por não acreditar em uma informação, apesar da informação conter um consenso consolidado nos meios acadêmicos e científicos.

Esse comportamento negacionista pode se incrustar em todos os setores da gestão de um governo, nas mais diferentes políticas públicas. A ideia predominante na atual política econômica, a do modelo de austeridade fiscal expansionista, como a trajetória única e dominante para resgatar o Brasil da crise de baixo crescimento, é negacionista no sentido de acreditar que não há alternativas a serem concebidas e implementadas para o mesmo objetivo.

No entanto, é possível destacar algumas controvérsias sobre a retomada do crescimento dentro do atual modelo de equilíbrio fiscal expansionista. A partir desse modelo, imagina-se que o ajuste é uma condição necessária e suficiente para restabelecer a confiança dos agentes econômicos, mobilizando as energias e as expectativas de consumidores e empreendedores numa trajetória de crescimento.

Na verdade, o escopo central das ações programáticas do novo mandato presidencial deverá superar as mazelas e os dramas da crise social e da crise ambiental que assolam o bem-estar social sustentável da população brasileira.

Complementarmente à crise social, escancarada no ciclo da pandemia, emerge a crise ambiental do uso predatório dos nossos ecossistemas, que vem desde o ciclo do pau-brasil e da mineração de ouro e de diamante no Período Colonial, até os processos atuais de intensos desmatamentos na Amazônia e no Pantanal, sem contar os desastres ambientais localizados.

Feitas as análises dos impactos econômicos, sociais e ambientais dos desastres ecológicos, não é possível comparar a sua importância relativa em termos econômicos e financeiros quando é preciso atribuir valor a ativos ambientais únicos e, principalmente, valor às vidas dos que foram atingidos pelos desastres, uma vez que, como dizia Blaise Pascal, quase sempre o que tem preço pode não ter valor e o que tem valor pode não ter preço.

(Colaboração de Paulo Haddad, membro do conselho consultivo no Instituto Fórum do Futuro. Economista, com especialização em Planejamento Econômico no Instituto de Estudos Sociais de Haia – Holanda, Professor Emérito da Universidade Federal de Minas Gerais, ex-Ministro da Fazenda e do Planejamento).

Publicado na edição 10.646, de sábado a terça-feira, de 19 a 22 de fevereiro de 2022.