Coronavírus, globalização e seus efeitos na economia brasileira

José Mário Neves David

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Uma nova ameaça à saúde pública mundial surgida recentemente tem causado apreensão e medo na população global. O 2019-nCoV, um dos grupos de vírus da família dos Coronavírus, tem infectado milhares de chineses e estrangeiros que estiveram recentemente ou mantiveram contato com quem esteve há pouco na China, causando uma nova onda de problemas no sistema respiratório que podem, inclusive, levar à morte. Por ora, a epidemia do vírus é considerada restrita ao território chinês, porém os efeitos dessa nova doença podem ser sentidos em todo o planeta e nos mais distintos e variados segmentos.
Muito embora haja um enorme esforço das autoridades de saúde chinesas e da Organização Mundial de Saúde (OMS) para frear a disseminação da doença e reter sua expansão aos limites do território da China central, ficou evidente, nos últimos dias, que as implicações decorrentes do surto da doença produzem efeitos não apenas sobre as pessoas que habitam a região considerada o epicentro da epidemia, mas também em relação à parcela significativa da população mundial. Bolsas de valores em todo o mundo têm enfrentado grande oscilação nos preços dos ativos ali negociados, causando turbulência, inquietação e resultando em grandes dúvidas quanto ao comportamento dos mercados e da economia global nos próximos meses.
A turbulência em questão decorre, em parte, do poder econômico, comercial e geopolítico alcançado pela China nas últimas décadas. Na condição de segunda maior economia do mundo, caminhando a passos largos para se tornar a primeira em um horizonte não tão distante, a China hoje é o destino e a origem de parcela significativa dos negócios fechados em todo o globo. Todas as empresas querem vender para os chineses, e todos os chineses de classe média e alta, estratos da população daquele País que vem crescendo ano a ano de forma assustadora, querem ter acesso a matérias primas e produtos de todos os cantos do mundo. Nesse sentido, as restrições de locomoção de pessoas e cargas dentro do território chinês (como forma desesperada de contenção do vírus, ao menos até que se descubra como trata-lo em grande escala) causa diminuição da atividade econômica chinesa e redução, ao menos temporariamente, do apetite sínico (não confundir com cínico!) por produtos e mercadorias estrangeiras.
Estimativas recentes indicam que o PIB chinês deve sofrer contração em 2020 face à guerra comercial travada com os Estados Unidos, que, apesar do acordo parcial firmado, ainda irradia efeitos na economia mundial, e em decorrência do novo surto de Coronavírus em curso. Tal redução impacta a economia como um todo, com a redução da atividade produtiva e dos embarques para o País asiático. Em um mundo altamente globalizado como o atual, uma epidemia no centro da China pode parar uma fábrica no interior de São Paulo.
Nesse contexto, fica evidente que os eventos e acontecimentos ao redor do mundo, sejam eles econômicos, geopolíticos, de saúde pública ou de qualquer outra cepa, por mais específicos e isolados que sejam, impactam diretamente a economia mundial, caso alcancem relevância suficiente para tanto. Assim, uma epidemia de um novo tipo de Coronavírus no interior da China, altamente contagioso, causa estragos nas bolsas e economias de todo o planeta, seja pelas dimensões assustadoras da doença e sua rápida disseminação, seja em função da importância atual e futura da economia chinesa para o mundo, seja em razão da globalização em voga no planeta, em que um sopro no oriente pode causar uma tormenta no ocidente em questão de dias.
Dessa forma, na economia globalizada, um espirro na China causa temor nos investidores e produtores brasileiros. Devemos, portanto, estar atentos ao desenrolar dos acontecimentos ocorridos no território chinês relativamente ao 2019-nCoV, vez que, ao menos enquanto não identificada a cura dessa epidemia, os solavancos e ameaças à economia global e brasileira deverão continuar, com efeitos ruins para todos os segmentos, em especial aqueles intimamente ligados ao mercado chinês, tais como o do agronegócio, da mineração, do luxo e tantos outros grandes exportadores ao Dragão do Oriente.

(Colaboração de José Mário Neves David, advogado e administrador de empresas em São Paulo-SP. Contato: josemariodavid@gmail.com).

 

Publicado na edição nº 10460, de 1º a 4 de fevereiro de 2020.