Curta: dos bastidores do nazismo para o mundo

Wagner Zaparoli

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Erra feio quem imagina que a primeira calculadora de bolso tenha nascido no Vale do Silício, pólo tecnológico americano. Erra feio também quem imagina que ela já tenha nascido com pilhas e visor de luzes vermelhas ou verdes, que imortalizaram as calculadoras HP, xodó dos engenheiros por muito tempo. Hoje elas estão em todos os lugares: nos celulares, nos relógios e até nos brinquedos.
A sua história foi longa e inusitada, passando por momentos iluminados e às vezes tenebrosos. Para a entendermos bem, temos que conhecer a história de seu criador – Curt Herzstark – um meio judeu nascido em 1902 na Áustria.
Herzstark viveu sua infância e adolescência em meio às calculadoras, pois seu pai vendia máquinas Remington e Burroughs para escritórios. Com o sucesso, a família construiu uma fábrica de calculadoras cuja expansão atingiu todo o território austríaco em pouco tempo.
Na época, décadas de 20 e 30, só existiam calculadoras enormes (a menor era do tamanho de um piano) e embora fabricantes de ponta como a Monroe, Friden e Marchant tentassem a miniaturização daqueles verdadeiros dinossauros, não tiveram sucesso. A menor calculadora que a Marchand criou pesava nove quilos, tinha nove colunas de botões e um carro com 18 posições mecânicas de leitura, além de outros adereços como uma manivela que lembrava o velho Ford Modelo T. No entanto, era considerada uma calculadora portátil.

Os desvios da guerra
A Áustria notou o poder nazista em 1938 quando o exército alemão invadiu o seu território subjugando governo e população às leis racistas e insanas de Hitler.
A família Herzstark, que ainda mantinha a fábrica de calculadoras, foi obrigada a deixar esse ramo de atividade para produzir equipamentos de precisão para o exército alemão, o que dadas as circunstâncias, era um grande alívio, já que outros haviam perdido o negócio, a família e até a vida. Mas a alegria durou pouco, pois em 1943 Herzstark saiu em defesa de dois funcionários presos e condenados pela Gestapo e também acabou sendo preso, acusado de apoiar judeus. Foi parar no campo de concentração de Buchenwald apenas com uma camiseta, um par de calças, um sapato de madeira e um boné tricotado.
O fim dos prisioneiros dos campos era quase idêntico: depois de um sofrimento atroz, vinha o alívio da morte. Com Herzstark tudo parecia caminhar assim, mas quis o destino que ele fosse trabalhar numa fábrica anexa ao campo e ali encontraria a saída para o sofrimento, a dor e a morte.

Do inferno surge a Curta
Herzstark embora tivesse sido poupado dos horrores que vivia a maioria dos prisioneiros naquele e em outros campos, obviamente não tinha uma vida de rei: trabalhava de sol-a-sol com parca alimentação. No entanto, sobrava-lhe tempo (nas madrugadas) para pensar em seus próprios sonhos e um deles era construir uma máquina de calcular que coubesse em seu bolso.
Noite após noite ele trabalhou nos infindáveis rascunhos conservando a esperança de que num futuro pudesse sair dali e fabricá-la peça-a-peça como havia sonhado. E sonho bom é aquele que se transforma em realidade, o de Herzstark começou a ficar bom em 11 de abril de 1945 quando o exército americano chegou para libertar Buchenwald. Nesta época ele já tinha toda a arquitetura de sua calculadora de bolso elaborada, e livre por assim dizer, foi à cidade de Weimar procurar possíveis fabricantes que tivessem interesse em produzir a calculadora.
Embora tivesse conseguido produzir alguns protótipos, Herzstark foi obrigado a voltar para a Áustria devido à chegada dos Russos, mas ali na sua terra natal não obteve sucesso na fabricação massiva das calculadoras; só conseguiu em Liechtenstein mediante financiamento do príncipe.
Batizada de Curta, o sonho de Curt Herzstark finalmente chegou ao mercado em 1948, e embora tenha passado por altas e baixas, a calculadora foi produzida até 1970, contabilizando um total de 150 mil unidades vendidas.
Herzstark, a despeito do sucesso da Curta, morava num apartamento modesto quando faleceu em 1988.
A Curta não fez história somente por ter sido a primeira calculadora de bolso, mas principalmente por ter sido concebida no momento mais débil da humanidade, a época da guerra, e sobrevivido ao descaso de homens preocupados em refazer suas pobres e humilhadas almas no pós-guerra.
E para quem nunca viu uma calculadora Curta, é só acessar o link https://pt.wikipedia.org/wiki/Curta.

(Colaboração de Wagner Zaparoli, doutor em ciências pela USP, professor universitário e consultor em tecnologia da informação).

 

Publicado na edição nº 10503, de 22 a 24 de julho de 2020.