Desconto e insensibilidade

José Mário Neves David

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O Brasil é um País complexo. Somos uma nação forte, com povo trabalhador e detentora de uma natureza exuberante. Contudo, no curso da nossa história, fomos forjando uma sociedade extremamente desigual, em todos os aspectos, e uma cultura baseada na burocracia, no patrimonialismo, na divisão econômico-social profunda e nas castas de privilegiados em detrimento da massa que sustenta tais benesses. Há, contudo, uma marca profunda e histórica do nosso País: a violência.

Na última semana, uma notícia chamou a atenção pelo grau de bestialidade e pela enorme banalidade. Um homem pediu um lanche em uma lanchonete no Rio de Janeiro e se esqueceu de apresentar o vale-desconto a que teria direito. A venda foi finalizada, e o vale mostrado em momento posterior não pôde ser usado, talvez não por má vontade do vendedor, mas sim em razão da venda já ter sido concluída e paga. O comprador, então, ficou bravo com o atendente e o agrediu fisicamente, posteriormente alvejando o vendedor com dois tiros, que não mataram o jovem, mas lhe custaram um rim e parte do intestino. Não se sabe dos detalhes da discussão, tampouco os motivos que levaram alguém a agredir fisicamente e a atirar contra o atendente, mas a selvageria e banalidade da cena indicam que a sociedade brasileira está doente.

Dessa situação, ficam alguns questionamentos, reflexões e temas para debate: será que uma vida humana vale menos do que um bônus de desconto de lanchonete, algo que daria uma economia de alguns poucos reais? O que leva uma pessoa a ir armada a uma lanchonete, ainda que seja policial militar e tenha prerrogativa para tanto? Por que a sociedade brasileira como um todo não mais se sensibiliza e revolta com uma situação dessas – aparentemente, virou uma situação “comum”?

Todo o contexto de violência no Brasil é complexo. Apesar da melhora de alguns indicadores nos últimos anos, o País ainda continua extremamente violento e perigoso, em comparação a outras nações desenvolvidas e em desenvolvimento, assim como o Brasil. Discutir as causas dessa violência endêmica não é o mote principal desse artigo, porém é importante tentar entender as razões de não mais termos sensibilidade para o absurdo em uma sociedade dita civilizada do século XXI, onde, em tese, impera o Estado Democrático de Direito e a Lei.

Parece que as situações absurdas de violência se tornaram comuns no cotidiano do brasileiro – e olha que a situação descrita acima é de menor impacto quando comparada com assassinatos de crianças por pais, execução a queima roupa em assaltos em grandes centros e no campo (mesmo quando o objeto roubado é entregue sem confrontamento), dentre outros crimes. E quando o absurdo se repete muitas vezes, parece que realmente se torna comum e normal em nosso País. Estamos presos ao despropósito e, literalmente, reféns de uma normalidade absurda.

Não sejamos ingênuos: a violência é uma constante em nossas rotinas e, muitas das vezes, na impossibilidade ou inoperância do Estado, acaba-se sendo necessário defender-se dela com os meios possíveis. Mas isso é resultado da falência da nossa sociedade, na medida em que a autodefesa se tornou uma necessidade e o “salve-se quem puder”, uma rotina. Ou nos defendemos, ou caímos na vala comum do absurdo, como o atendente que perdeu um rim e parte do intestino por causa, aparentemente, de um vale-desconto em uma lanchonete. Situação similar em um País desenvolvido geraria comoção; no Brasil, é só mais um número, uma estatística da nossa rotina selvagem.

Nesse contexto, é fundamental que políticas de segurança sejam implementadas em âmbito nacional, para que o crime seja combatido com inteligência e rigor. A impunidade que reina no Brasil deve ser rechaçada com todas as forças e meios legais, para que o crime deixe de compensar. A sociedade deve abrir os olhos para a desigualdade, cada vez maior e que gera mais e mais violência no Brasil, um ciclo sem fim que não está sendo combatido. Um País complexo como o nosso, mas repleto de oportunidades e gente a fim de “fazer acontecer”, deve – e pode – ser minimamente seguro, sob pena de, não o sendo, fiquemos insensibilizados, cada dia mais, com o absurdo nosso de cada dia.

(José Mário Neves David é advogado e consultor. Contato: jose@josedavid.com.br.)

Publicado na edição 10.666, sábado a terça, 14 a 17 de maio.