Distraindo o cérebro

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A aliança entre a medicina e a computação está cada vez mais forte. Há alguns anos explorei nesse espaço o assunto telemedicina, o qual contava um pouquinho sobre o belo trabalho que professores e alunos da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo desenvolveram no Amazonas em 2005, levando à população local infraestrutura e conhecimentos médicos, inimagináveis sem uma base computacional.

A telemedicina é apenas uma das inúmeras aplicações da tecnologia computacional voltadas à área médica. Outra, a realidade virtual – mundo tridimensional gerado por computador – parece estar trazendo grandes benefícios a pacientes expostos a muita dor e a muito medo. A realidade virtual, que tem sua origem no cinema (a introdução do cinerama e cinemascope em meados da década de 1950 é considerada uma das primeiras experiências de realismo artificial), surgiu como um mito de mundo alternativo construído por bits, bytes e muita imaginação para dispor ao homem algo que talvez ele não encontrasse em seu mundo real. Não havia um objetivo primário de relacionar a realidade virtual às várias áreas do saber, como a educação, a física, a matemática, a astronomia e a própria medicina.

Hoje pode-se afirmar que a realidade virtual criou alma e asas e alçou voo em sua conquista dos muitos adeptos da tecnologia. Dos simuladores de aviões aos jogos em três dimensões, dos óculos de soldados em guerra à utilização médica, a realidade virtual revela-se aos olhos e mentes daqueles que querem viver experiências únicas.

A dinâmica cerebral

Certamente a dor causada por queimaduras graves é uma das mais difíceis de suportar. Não menos dolorosos são os tratamentos pós-traumáticos, haja vista que a pele atingida deve ser esticada para preservar a elasticidade, reduzir a atrofia muscular e evitar a necessidade de enxertos. Depoimentos de alguns sobreviventes do desastre da Usina Chernobyl na antiga União Soviética que tiveram grande parte do corpo queimada pelas chamas radioativas insinuam preferência à morte a ter que aguentar a agonia do tratamento. A mitigação dessa dor normalmente é feita com base em medicamentos chamados opióides, que são analgésicos semelhantes à morfina. Dependendo da gravidade do caso, nem mesmo eles são capazes de evitar a torturante dor.

Pensando em criar alternativas aos opióides, David Patterson, especialista em dor da Universidade de Washington e Hunter G. Hoffman, diretor de centro de pesquisa também da Universidade de Washington, iniciaram estudos em 1996 para verificar se pacientes com queimaduras graves poderiam aliviar o seu desconforto com a ajuda de um programa de realidade virtual durante o tratamento das feridas.

A idéia básica dos pesquisadores era distrair literalmente o cérebro de tal forma que se concentrasse nas cenas e movimentos do programa esquecendo a dor das feridas. Isso porque o cérebro trabalha basicamente como o foco de luz de uma lanterna, que não consegue ser direcionado em duas posições distintas simultaneamente. O nosso cérebro também não consegue processar duas realidades simultaneamente e assim, enquanto ele estiver processando a realidade virtual do programa, ignorará a realidade real da dor no corpo.

As fobias da mente

Se a realidade virtual pôde ser muito bem empregada para distrair o cérebro e reduzir sensivelmente a dor de pacientes, bem que poderia auxiliar pacientes escravos de fobias. E assim aconteceu. Em 1990, Barbara Rothbaum, da Universidade Emory e Larry Hodges, da Universidade da Carolina do Norte, introduziram a realidade virtual como terapia no combate a fobias pela exposição do paciente a simulações gráficas de seus maiores medos, como os de avião, altura, falar em público e insetos peçonhentos. Os primeiros resultados foram positivos, o que levou outros pesquisadores a adotarem a tecnologia virtual para tratar de pacientes com as mesmas características de fobia exacerbada. Para se ter ideia, em uma pesquisa que reuniu 23 pacientes diagnosticados com aracnofobia nos Estados Unidos, 83% relataram uma diminuição significativa da ansiedade em relação às aranhas depois de se submeterem a sessões de realidade virtual.

Outro estudo dá conta do sucesso que pessoas sobreviventes ao 11 de setembro obtiveram ao se submeterem à terapia com a realidade virtual, vendo imagens geradas por computador de aviões sobrevoando as torres e colidindo com elas. E em função desses e de inúmeros outros estudos em nível laboratorial, esse tipo de aplicação da realidade virtual acabou por dar um salto para o uso clínico geral, principalmente nos Estados Unidos. Lá, psicólogos e psiquiatras podem alugar programas de realidade virtual a US$400 mensais e administrarem o tratamento em seus próprios consultórios. Atualmente a adesão desses profissionais aos capacetes, óculos e luvas – ferramentas da tecnologia virtual – está em franca ascensão e o futuro promete muito mais.

Será o fim dos divãs?

(Colaboração de Wagner Zaparoli, doutor em ciências pela USP, professor universitário e consultor em tecnologia da informação).

Publicado na edição 10.594, de quarta a sexta-feira, 21, 22 e 23 de julho de 2021.