Do Bijou ao Municipal: uma casa para o teatro em Bebedouro

José Pedro Toniosso

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Fachada original do Theatro Rio Branco, nos anos de 1920, e do Teatro Municipal, inaugurado em 1996. Fotos: (acervo do autor).

Nos primeiros anos do século passado, surgiram em Bebedouro os primeiros grupos de teatro amador, embora a pequena cidade ainda não possuísse nenhum palco para apresentação das peças destes ou de outras companhias que por aqui passavam.

Conforme os registos existentes, em setembro de 1910 ocorreu a inauguração do primeiro palco no “Bijou Theatre”, espaço pertencente ao dr. Ricardo Marcondes Machado onde existia um barracão no qual eram promovidos diversos tipos de espetáculos. Localizava-se na antiga rua Alfredo Elis, atual dr. Oscar Werneck, atrás da Igreja Matriz.

O primeiro programa apresentado incluiu declamações, monólogos e peça infantil. Após a inauguração deste palco, tornou-se mais frequente a realização de espetáculos teatrais na cidade, tanto amadores como profissionais.

Em janeiro de 1913, com o prédio ainda inacabado, ocorreu a abertura do “Theatro Rio Branco”, pertencente à Empresa Miguel Paschoal. Localizado na esquina das ruas São João e Alfredo Elis, dedicou parte significativa de sua programação para a apresentação de companhias teatrais e musicais de reconhecido sucesso. Em 1915, por exemplo, apresentou dois concertos, duas óperas líricas e dez operetas, entre outros espetáculos.

Nas décadas subsequentes, o “Rio Branco” manteve-se como o principal local para apresentações das companhias teatrais. No entanto, no final da década de 1960 o estabelecimento passou por uma grande reforma que, entre outras mudanças, retirou o palco para a instalação de uma nova tela de projeção, tornando-o exclusivamente uma sala de cinema.

Desta forma, entre as décadas de 1970 e 1990, com a inexistência de uma sala própria, os eventuais espetáculos teatrais foram realizados no auditório do Colégio Anjo da Guarda e do Instituto de Educação Dr. Paraíso Cavalcanti, os quais não possuíam os recursos de som e iluminação necessários para apresentação de peças com coreografias ou cenários maiores.

No decorrer dos anos houve diversos apelos dos bebedourenses para que o poder público dotasse a cidade de um teatro. Em 1986, por exemplo, a Associação Pró-Arte chegou a apresentar um anteprojeto ao prefeito Sérgio Sessa Stamato para a construção de um teatro municipal, sendo anunciado que ele seria construído em um grande terreno localizado defronte ao recinto da Feccib, no Jardim Casagrande. No entanto, como sabemos, o projeto não saiu do papel, sob a alegação de falta de recursos financeiros.

Foi somente em 1996, após o fechamento definitivo do Cine Rio Branco e com amplas reformas em seu edifício, que finalmente os bebedourenses receberam uma casa teatral, o “Teatro Municipal Maurício Alves de Oliveira Júnior”, denominação que homenageou um defensor do teatro amador local no passado.

A inauguração fez parte da programação festiva do aniversário da cidade e contou com a presença de centenas de pessoas, incluindo autoridades, convidados e artistas, recepcionados pelo prefeito Hélio de Almeida Bastos.  Duas famílias tiveram destaque especial: a do patrono que desde então passou a nomear o teatro e a família Canettieri, proprietária do imóvel e que por décadas administrou o antigo cinema.

Após a cerimônia inaugural, com todas as 572 poltronas ocupadas, teve início a programação com apresentação da Orquestra Sinfônica de Ribeirão Preto, regida pelo maestro Roberto Minezuk e que executou peças de Beethoven, Strauss, Rossini e Ravel..

Ainda no mesmo mês, o público pôde assistir à peça “Gertrude Stein, Alice Toklas e Pablo Picasso”, de Alcides Nogueira e com os renomados atores Nicete Bruno, Clarisse Abujamra e Francarlos Reis, sob a direção de Antônio Abujamra e Márcio Aurélio.

O teatro amador teve sua vez em agosto, na fase regional do Mapa Cultural Paulista, com grupos de Barretos, Brodósqui, Franca, Guaíra, Monte Alto, Ribeirão Preto e São Simão. Paralelamente, o grupo bebedourense Dramaturmaquia apresentou a peça Fever, baseada na obra de Eurípedes, em plena via pública, com performance dos atores Melissa Zanin, Gabriel Lopes e Rogério Carlos Fábio.

A inauguração em 1996 representou a reparação de uma lacuna histórica de décadas, e hoje, ao completar 30 anos de existência, o Teatro Municipal mantém-se como o principal espaço das artes cênicas em Bebedouro. O local, que já recebeu nomes consagrados e talentos locais, segue como patrimônio indispensável da cultura bebedourense.

 

(Colaboração de José Pedro Toniosso, professor e historiador bebedourense,

www.bebedourohistoriaememoria.com.br).

Publicado na edição 11.004, sábado a terça-feira, 9 a 12 de maio de 2026 – Ano 101