11 de Março ou 3 de Maio? Por que Bebedouro mudou sua data festiva?

José Pedro Toniosso

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Registro histórico de um dos portais monumentais construídos em 1949 para as primeiras celebrações oficiais do 3 de maio, marcando o 65º aniversário de fundação de Bebedouro. Neste, localizado na rua Prudente de Moraes, entre as duas praças centrais, a presença de autoridades, visitantes e grande massa popular.Foto: acervo do autor

Há anos, durante o mês de maio, os bebedourenses são convidados a participar de uma programação diversificada em comemoração ao aniversário da cidade tendo como marco o dia três do referido mês, decretado oficialmente como a data da sua fundação.

No entanto, por 49 anos as festividades tinham como referência o dia 11 de março de 1899, quando foi aprovada a Lei Municipal no. 34, de autoria do coronel Eduardo da Silva Pereira, que elevou a Vila de Bebedouro à categoria de cidade, conforme publicou o jornal Correio Paulistano:

“Em sessão de 11 do corrente, foi elevada à cathegoria de cidade a actual Villa de Bebedouro. Na ocasião da sessão fez-se ouvir uma das bandas de música da cidade, fallando sobre o acto o integro dr. Juíz de Direito da comarca, o presidente da Câmara, capitão Francisco Pedro de Carvalho e o dr. Brandão Veras, intendente municipal. Nessa ocasião o vereador tenente Joaquim Penha, propôs a mudança dos nomes de duas ruas, uma para 15 de novembro e outra para 11 de março, em comemoração ao acontecimento do dia. Finda a sessão houve uma passeata pelas principaes ruas da cidade […] O povo mostra-se em extremo satisfeito com a nova cidade.”

A partir de então a referida data tornou-se feriado municipal e anualmente eventos foram promovidos, porém, de acordo com o que ficou registrado em pequenas notas na imprensa da épocal, as comemorações eram restritas.

Em 1918, por exemplo, o Jornal de Bebedouro noticiou que ocorrera o hasteamento da bandeira brasileira e o comércio fechara no período da tarde, e que “na hora de costume a banda Internacional deu no jardim um concerto.” Nos anos seguintes, a programação limitou-se ao hasteamento do pavilhão nacional e a suspensão do expediente nas repartições públicas. Em 1940, uma novidade: o jornalista Tiburcio Gonçalves Filho discorreu sobre a data ao microfone da Rádio Jornal.

Curiosamente, somente no ano de 1948, última comemoração do 11 de março, nas festividades do 49º aniversário da elevação de Bebedouro à categoria de cidade, é que foi organizada uma programação diversificada, tendo à frente a Prefeitura, Câmara e Associação dos Amigos do Município.

Naquele ano, conforme publicou o jornal A Vanguarda, as solenidades se iniciaram com a realização de missa solene na Igreja Matriz e, em seguida, foram promovidos eventos cívicos nos monumentos recém-inaugurados, dedicados às figuras de João Manoel e Abílio Manoel, na praça Barão do Rio Branco; e aos “fundadores de Bebedouro”, na praça Nove de Julho. Houve sessão de cinema no Rio Branco, com a exibição de diversos filmes históricos sobre a cidade, além da transmissão de um programa especial de músicas em homenagem à cidade pela emissora de rádio local.

No ano seguinte, não houve comemoração do 50º Dia da Cidade, em 11 de março, mas em 3 de Maio as festividades foram em homenagem ao 65º aniversário da fundação de Bebedouro. Mas, por que a mudança?

A definição da data oficial da fundação de Bebedouro foi resultado das pesquisas realizadas por Eugênio de Oliveira Silva e Carlos Catelli, que comprovaram ter sido em 3 de maio de 1884 em que ocorreu a doação da primeira parte do atual patrimônio urbano, feita pelo casal João Francisco da Silva e Ana Cezária Pimenta, conforme escritura lavrada no cartório de São Sebastião do Ribeirãozinho, atual Taquaritinga.

Desta forma, por meio da Lei Municipal no. 57, o prefeito Quito Stamato instituiu o Dia da Fundação de Bebedouro, declarando-o feriado local. Com a oficialização, o primeiro 3 de maio foi comemorado efusivamente, com programação que se estendeu por vários dias, e incluiu palestras, missa campal, inaugurações, jogos de futebol, retreta no coreto, visita aos túmulos dos benfeitores, alvorada, desfile cívico, churrasco, sessão cívica no Rio Branco, bailes em todos os clubes e queima de fogos.

A cidade foi toda ornamentada, inclusive com a construção de arcos monumentais nas ruas principais, sendo convidadas diversas autoridades regionais e estaduais. Desde então, ininterruptamente, todos os anos o 3 de maio vem sendo comemorado pelos bebedourenses.

Quanto à denominação das ruas, desde sua criação e até 1955, a 11 de março correspondia à atual José Francisco Paschoal. Com o falecimento deste, em sua homenagem, a referida rua recebeu o seu nome, enquanto a rua 11 de março, desde então, passou a ser uma das ruas da Vila Major Cícero de Carvalho.  Quanto ao 3 de maio, há dois logradouros com essa denominação: uma praça rotatória entre o início da rua dr. Oscar Werneck, próxima à antiga estação ferroviária; e uma viela localizada no Jardim Luciana, entre a avenida Raul Furquim e o Jardim Ciranda.

Assim, entre leis e pesquisas, Bebedouro reafirma sua identidade, honrando tanto o progresso da ‘categoria de cidade’ quanto a operosidade dos seus moradores.

 

(Colaboração de José Pedro Toniosso, professor e historiador bebedourense,

www.bebedourohistoriaememoria.com.br).

Publicado na edição 11.003, sexta a sexta-feira, 1º a 8 de maio de 2026 – Ano 101