É culpa nossa

José Renato Nalini

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A Odisseia está na ordem do dia e em seu início, Homero põe na boca de Zeus algo que nos serve: “Como os homens são tolos! Como culpam injustamente os deuses! O destino deles é sofrer, mas, devido à sua própria loucura, acarretam sobre si sofrimentos maiores do que os que o destino lhes preparara. E depois dizem que a culpa é dos deuses!”.

A culpa é inteiramente nossa.

Se viver pode ser difícil, nossos próprios pecados e erros a tornam ainda mais difícil do que deveria ser. Erro ao não levar a educação a sério, mas satisfazer-se com esse arremedo de formação que se satisfaz com a transmissão de conhecimento e com estimular a memorização de dados.

A sociedade egoísta e cúpida não percebe que as informações são abundantes, excessivas até, e nunca estiveram tão disponíveis como hoje, com a mágica das redes sociais. A inflação de dados é uma das graves questões contemporâneas.

Uma educação de qualidade formaria mentes críticas, sagazes, habilitadas ao enfrentamento do inesperado, que é o que mais acontece hoje. E pessoas educadas escolheriam melhor os seus representantes. Fiscalizariam sua atuação. Acompanhariam o desenvolvimento da gestão da coisa pública.

Passei uma semana a rever Atenas e fui aos locais em que se vivenciou a Democracia. A Ágora, a Acrópolis, visitei o Liceu de Aristóteles, o Jardim de Akademus em que Platão ensinou e estive em Delfos, cujo oráculo foi tão presente na história helênica.

Os gregos antigos eram extremamente simples, mesmo os mais abastados. Mas levavam a sério a participação na vida pública. Era um dever atuar no sentido de aprimorar o convívio, assim como formar cidadãos virtuosos. Os que se afastassem da virtude tinham seus nomes inscritos num pequeno caco, recolhido quando das assembleias. Ao se atingir certo número, eram condenados a um exílio de dez anos. Isso era o ostracismo, algo lamentavelmente abandonado e que nos impõe aturar insuportáveis fardos para a comunidade.

Isso não é culpa da divindade. É consequência de nossa falta de pudor cívico. Resgatar a sabedoria ateniense não nos faria mal nesta hora.

 

(Colaboração de José Renato Nalini, reitor da Uniregistral, docente da Pós-Graduação da Uninove e Secretário-Executivo das Mudanças Climáticas de São Paulo).

Publicado na edição 11.036, sábado a terça-feira, 26 a 29 de setembro de 2026 – Ano 102